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Psicanalista ... Ator Institucional
Stetina Trani de Meneses e Dacorso

A sociedade é constituída por instituições. Vivemos submetidos às suas leis. Sem as instituições, nosso viver coletivo seria impossível, com elas nosso viver subjetivo e coletivo são tentativas de minorizar sofrimentos internos e externos decorrentes desse convívio: esforços no sentido de acordos; barganhas; transgressões sem conseqüências; obediência com direito a prêmios e reconhecimentos.
Não é pouco o que desejamos. Com a sofisticação da sociedade e novas tecnologias de comunicação, o saber sobre o homem é de acesso a outras áreas distintas da psicanálise, provocando, em certas situações, a busca de uma visão multidisciplinar do humano, assim nos deparamos nos últimos anos com psicanalistas saindo do setting e participando do convívio, leis, estatutos e objetivos de várias instituições: escolas, presídios, clinicas multidisciplinares e tantas outras. Não citamos as Sociedades de Psicanálise, por serem o habitat dos psicanalistas, onde participam debatendo; criando; fazendo trocas de conhecimento; rebelando; questionando, e seja, por qualquer razão fornecida – fazendo cisões ... A história dessas sociedades parece a mesma através dos tempos ...
Vamos ter como base instituições outras que não as sociedades de psicanálise, aquelas que recebem no seu quadro de funcionários um psicanalista que lá irá produzir e conviver com todos os outros atores institucionais – profissionais que participam / trabalham na instituição.
Nossa questão é: como este profissional – que possui um saber especifico sobre o ser humano e sobre as forças que permeiam os agrupamentos humanos – se situa neste coletivo – seus impasses e angústias que vão direcionar suas ações. Para tentarmos explanar sobre tema tão complexo, vamos primeiro percorrer alguns textos de Freud que versam sobre as relações de um homem com outros, depois faremos uma síntese da Análise Institucional que é uma intervenção feita na instituição com o intuito de “desvendar” questões subjacentes à sua dinâmica e funcionamento. Para finalmente tentarmos discutir sobre os impasses que o psicanalista provavelmente se depara quando distante do seu habitat profissional – setting analítico.

GRUPOS ... CULTURA .... ANÁLISE INSTITUCIONAL

Freud escreveu vários textos sobre o homem e sua relação com o meio, percorrendo caminhos da religião, antropologia social, mitologia.
No grande tratado: Totem e Tabu (FREUD, 1913), apesar das ressalvas de vários antropólogos, Freud tenta explicar a instalação dos totens nas comunidades primitivas, sua constituição, sua função protetora e proibitiva. Do “mito” da Horda Primitiva – onde um pai sábio, forte e brutal, “dono” de todas as mulheres, coisas e pessoas, expulsa, mata ou castra os filhos homens quando chegam à idade de procriar. Estes um dia se rebelam, se reúnem, voltam, matam e comem a carne do Pai – Freud deduz a universalidade de dois desejos recalcados: o incesto e o desejo de matar o Pai, cuja expressão se apresenta no “Complexo de Édipo”.

“... Nossas leis, normas, regras, proibições que funcionam de forma imperativa parecem remeter aos primitivos tabus...”(FREUD, Totem e Tabu, 1913)
Este imperativo de dogmas que não admite questionamentos nem dúvidas é o caminho que Freud percorreu em “Futuro de uma Ilusão” (1927) ... Credo quia absurdum.

A religião enquanto criação da cultura serve ao homem como uma opção para lidar com o desamparo, incertezas, imprevisibilidade da vida que é tão angustiante a todos nós. O Pai-Deus que a todos protege e ama igualmente representa para o ser humano o pai idealizado, imortal e forte da primeira infância que protege e castiga. Nos últimos capítulos Freud desenvolve um diálogo com suposto interlocutor (talvez o Reverendo Pfister) que o inquire sobre suas premissas em relação ao sentimento religioso, Freud responde que a felicidade prometida ao homem pela cultura não foi alcançada, restando-lhe a promessa de um mundo melhor no além-vida e se o ultimo presságio for posto em dúvida por um texto sobre a religião e se isso significar que o homem vai se arremessar destrutivamente contra o outro – a civilização terá de usar de métodos mais coercitivos contra esta violência e repensar seu relacionamento com a religião. Em “Totem e Tabu” e : “Futuro de uma Ilusão” , Freud nos mostra o peso que uma idéia de ordem mística tem para os homens na sua busca de proteção e amparo. E como estas idéias também implicam numa exigência de submissão e castigo para os transgressores.

“É verdade que a psicologia individual relaciona-se com o homem tomado individualmente e explora os caminhos pelos quais ele busca encontrar satisfação para seus impulsos pulsionais, contudo, apenas raramente e sob certas condições excepcionais a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo mais está invariavelmente envolvido com um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo a psicologia individual é, ao mesmo tempo, também psicologia social.”(FREUD, Psicologia de Grupo e Análise do Ego, 1921)

Neste trecho Freud salienta aquilo que é central nos seus trabalhos sobre o social, isto é, as relações do homem, sejam elas de que nível for. Como o ser humano vai administrar a satisfação de seus impulsos na relação com o outro que também almeja satisfação pulsional. E como lidar com esta satisfação num coletivo, cujas regras são “iguais” para todos. Já em 1908, em “Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna” temos uma aproximação daquilo que outros textos aprofundarão: a passividade, subserviência e a neurose como conseqüências da abstinência sexual fora do casamento e do sexo cuidadoso, higienizado no casamento. Estas conseqüências decorrem da impossibilidade de um “controle” total sobre a pulsão sexual, há um quantum que exige satisfação que quando impedida acaba cobrando seu preço.
Em “Psicologia de grupo e análise do Ego”(1921), Freud discorre sobre os agrupamentos humanos. Através de teóricos do assunto denuncia que existe algo mais nestes grupos, e que forças psíquicas mais poderosas mantém as pessoas reunidas. Na análise do exercito e da igreja, Freud cita o líder como figura idealizada pelo grupo. Protege e castiga – Pai da Horda Primitiva. Os elementos do grupo o colocam no lugar de ideal do eu, possibilitando a identificação entre si através do ideal, que é comum a todos. As pessoas do grupo ficam coesas, ligadas entre si pela afetividade – pulsão sexual inibida em seu objetivo, estabelecendo laços libidinais. Neste texto Freud se refere ao conceito tão importante na Psicanálise: a identificação, que tem como protótipo a incorporação da fase oral (canibalismo, comunhão totêmica de Totem e Tabu). Aqui Freud se refere a três tipos de identificação: a) forma original de laço com o objeto; b) identificação regressiva que toma o lugar da escolha de objeto libidinal; c) decorrente de uma nova percepção, de uma qualidade comum partilhada com outra pessoa que não é objeto de pulsão sexual. Este ultimo tipo é que liga elementos de um grupo, isto é, está no contexto das comunidades afetivas.

Em “Mal estar na civilização” (1927) Ananké – Necessidade (Trabalho) e Eros são considerados os pais da civilização, obrigando o homem a entrar em acordo com o outro, perdendo sua liberdade – que não é Dom da civilização – em troca da proteção proporcionada pelas leis comuns; pelo usufruir da produção científica, artística, tecnológica que o coletivo cria através da sublimação da pulsão sexual e internalização da pulsão agressiva.
“... O homem sempre defenderá sua reivindicação individual contra a vontade do grupo”(FREUD, Mal estar na civilização)

Com isto Freud nos diz que não é de bom agrado, por solidariedade que nos submetemos às leis do coletivo, tentaremos sempre conseguir formas de nos satisfazer sem ter de “pagar a conta” e principalmente, tentando situações e justificativas que permitam escapar do severo, onisciente e onipresente censor interno. Alguns tentam sentir-se narcisicamente melhor que os outros por seguirem regras e preceitos de forma rígida, afastando de si o “incômodo” decorrente da percepção de que os “maus” não sofrem conseqüências pelos seus atos e na maioria das vezes sentem-se melhor. Contudo, este investimento narcísico não os deixa livre do mal estar decorrente da insatisfação pulsional, tornando-os mais sádicos consigo mesmos e na mesma proporção, com o outro.
Não é nosso intuito aprofundarmos nos textos citados, nem fazer um apanhado geral das obras freudianas que versam sobre o homem e sua relação com o outro. Os pontos que sinteticamente levantamos apontam para o conflito interno, sofrimento, identificações que o “viver com” implica.
É com base nos textos freudianos que a Analise Institucional desenvolve muitos de seus corpos teóricos. A Analise Institucional filha do período conturbado da década de 60/70 teve como criadores René Louraue George Lapassade, que deparando com o questionamento dos estudantes às instituições tradicionais consideradas esteio de formação cultural, resolveram investigar o desagrado, a revolta. Lourau percebeu o impasse dos saberes existentes, das intervenções psicossociológicas, propõem então, uma provocação institucional – análise institucional – recorrendo a sociologia, psicanálise, filosofia. Elabora uma teoria onde estas teorias se interpenetram, organiza uma técnica onde se lida com um nã0-saber. O método implica que estabelecendo uma crise, o grupo institucional passa ao questionamento das normas, regras, relações baseadas no “natural” a fim de passar a serem do comprometimento de todos. Intervenção sem um ideal como objetivo, onde o analista institucional é um andarilho nas trilhas que subjazem nas relações institucionais, no implícito dos estatutos e no explicito, tentando possibilitar ao grupo-objeto – grupo-submetido, se constituir enquanto grupo-sujeito – aquele que cria seu próprio estatuto e se auto-institui – a comunidade fraterna.
Da década de 60 aos dias atuais este tipo de intervenção foi crescendo, várias teorias surgindo e sendo chamados de institucionalistas todos aqueles que intervém na instituição. Mas afinal, de que instituição se trata? Da instituição que está além – ou seria aquém? – do estatuto; das leis objetivas; do organograma. Trata-se da instituição fantasmagórica, no sentido de que aquilo que define as relações entre os atores institucionais é da ordem do implícito, do não-dito, não sabido, que remete ao momento inaugural, fundante de uma instituição que continua existindo ao longo do tempo na forma de fantasias, mitos, histórias, que modificadas, deformadas, aumentadas, re-significadas, mutiladas pelas gerações que se sucederam e deram uma “forma” à instituição, definindo sua imagem, seu funcionamento, dinâmica, relação com clientela e entre atores institucionais. O desmascarar destes fantasmas é um processo de auto-análise onde os grupos como protagonistas de seus problemas, necessidades e demandas constitui seu saber e constróem seu próprio estatuto que quando concretizado seria a auto-gestão, sem submissão a alguém de fora ou de cima.
De Tótem e Tabu à Analise Institucional temos os impasses do homem com o outro, com a cultura, com o não saber e com o místico protetor.

PSICANALISTA ENQUANTO ATOR INSTITUCIONAL

A mesquinharia é a maneira que o homem tem para vingar-se da sociedade pelas restrições que esta lhe impõem. É o sentimento vingativo que anima o conformista e o fofoqueiro. Um selvagem pode nos cortar a cabeça, nos devorar, nos torturar, mas nos poupará das pequenas e contínuas ferroadas que, às vezes, fazem que a vida em uma comunidade civilizada seja quase intolerável. Os hábitos e idiossincracias mais desagradáveis do homem, sua falsidade, sua covardia, sua falta de respeito, são produtos de uma adaptação incompleta a uma civilização complexa. São o resultado do conflito entre nossas pulsões e nossa cultura. (Entrevista de Sigmund Freud em 1930 a George Sylvester Vierek in Folha de São Paulo de 03/01/1998)

Os profissionais do inconsciente, nas ultimas décadas, tem sido solicitados para intervenções nos agrupamentos humanos com o intuito de melhor dinâmica interna. Contudo, também existem muitos psicanalistas que deixando os espaços fechados e protegidos dos consultórios, os “guetos' das Sociedades Psicanalíticas se aventuram em posições administrativas, políticas e econômicas nas instituições, lidando com profissionais de áreas distintas, tendo de compartilhar do cotidiano destas instituições com seus impasses, burocracia, relações de poder, “mesquinharias e ferroadas” dos agrupamentos humanos.
O psicanalista tem uma escuta-leitura da qual não há como abdicar. É inerente a si. Contudo, enquanto ator- institucional – e não interventor “neutro” e distante – está submetido às exigências grupais, a um estatuto que existe independente de sua vontade; a uma linguagem característica do grupo; a leituras de mundo distintas da sua; submetido à uma dinâmica na qual tem de inserir se nela deseja permanecer.
As questões são complexas e delicadas, enquanto um a mais nas instituições, sofremos os conflitos inerentes às relações, por que seria diferente conosco? Também temos reações negativas, de mesquinharia, idiossincrasias, falsidade como resposta às imposições do grupo, como bem disse Professor Freud.
Como encontrar a solução, qual a saída? Voltar a nos enclausurar nos pequenos “guetos dos iguais” ou tentarmos lidar com as diferenças sem precisarmos sucumbir à angustia paralisante e a tentação de excessivas (sejamos humildes – não pensemos na ausência total) reações mesquinhas.
Quando falamos das diferenças é inevitável pensar no texto Introdução ao Narcisismo de 1914, quando Freud discorre sobre o investimento libidinal no eu. O narcisismo, ao longo da obra freudiana acabou ficando incompleto, outros o ampliaram constituindo teorias onde o conceito é central, à partir daí falamos de objetos de possessão narcísica, ganhos narcísicos, feridas narcísicas.
Todos nascemos e crescemos numa instituição originária – família – daí as instituições existem em nós com seus tótens, tabus, regras, proteção. Nos precedem e existem independente de nós. Quando inseridos numa instituição fazemos identificações com objetos idealizados e persecutórios, experimentamos dependência de objetos e sofremos a “violência” da submissão de nossos desejos, criatividade, anseios em nome de uma ordem comum, nem sempre, satisfatória. Existem os benefícios narcísicos quando uma produção é reconhecida; os laços afetivos constituídos são agradáveis; aquilo que se diz é considerado pertinente e os ganhos concretos ligados à sobrevivência. E as feridas narcísicas? Bom, percebemos que somos “um a mais”, e nossa ausência – por mais que desejamos – não “matará” a instituição, que outro assumirá nosso lugar e poderemos ficar – ou não – na “história” como aquele que ... (?) Não é algo digerido pelo nosso anseio de sermos imprescindíveis, fundamentais e insubstituíveis. Ter de recusar nossa linguagem singular para falarmos a “linguagem da tribo”, ter de fazer concessões, arranjos, acordos, o jogo de perdas e ganhos institucionais. E o psicanalista enquanto ator institucional? Sua escuta/fala são singulares. Existiria nas instituições lugar para este tipo de intervenção, quando se é um elemento do agrupamento? Alguém que também sofre de todas as forças colocadas anteriormente?
As instituições funcionam com base na sua lei, no instituído, existência concreta dos indivíduos. A fala psicanalítica remete a uma subjetividade, muitas vezes recusadas no dia-dia institucional, assim as colocações do profissional, podem ser sentidas como persecutórias, mal-compreendidas, invasivas. O psicanalista-ator institucional além de sofrer das dores do convívio coletivo, também tem de lidar com o seu saber que lhe possibilita uma leitura do mundo fantásmatico que permeia o funcionamento, relacionamento e dinâmica institucional, ficando submetido ao conflito do mais-um ou da denúncia de “algo” distante da percepção de seus pares institucionais.
Que posição assumir? Indiferença – não querer saber – envolver – decidir; ou apontar correndo o risco da incompreensão, da acusação de “falar sobre sexo dos anjos” quando se trata de questões concretas exigindo soluções objetivas. Acredito que a grande dificuldade seja encontrar a “distância ideal” como na parábola dos porcos espinhos, citada por Freud em Psicologia das Massas e Análise do Ego: “Era inverno e os porcos espinhos sentiam frio, ficaram neste vai-e-vem muitas vezes, até encontrar a distância ideal que os aquecesse e não os espetassem”. Não podemos esquecer que temos tanto o poder de espetar quanto de sermos espetados, sabemos que a “distância ideal” entre todos os narcisismos não é facilmente alcançada. Narcisismo das pequenas diferenças onde similares se degradiam, ridicularizam, tentando destituir uns dos outros, fenômeno que pode ser visto não apenas entre duas raças, religiões, países, mas no interior de uma mesma instituição quando grupos se formam por afinidades/afetividade, descarregando sua agressividade em outros grupos mais distantes.

A saída do impasse não é fácil, parece exigir muito mais do psicanalista-ator institucional, fora de seu habitat. As veredas que percorremos foi no intuito de “relembrar” os conflitos e fomentar questionamentos, já que muitas vezes o saber de que se é possuidor pode servir de escudo e de arma na relação com a diferença do outro, uma “religião” da qual se torna um seguidor fanático, “um tótem”, um “leitmotiv” de ações e discurso onde as falas distintas são desprovidas de sua importância e especificidade. Não existem soluções mágicas, o convívio não é fácil quando as “regras” do jogo são “aparentemente” de outra ordem. Lembremos uma frase de Freud em correspondência com o Reverendo Pfister, que se não nos acalenta, pelo menos pode nos fazer pensar:
“... Exigir da ciência que estabeleça uma ética é injusto - a ética é uma espécie de código de trânsito para o tráfego dos homens ...”(FREUD, Ernst; MENG, Heinrich. Cartas entre Freud e Pfister – 1909/1930).



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