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Sonho
UNITERMOS: Sonhos, Interpretação, Judaismo, Mitologia, Pulsão.
“Cerradas as portas
a luta prossegue nas
asas do sono”
Impossível, aos 100 anos de publicação da Traumdentung, abordá-la sob quaisquer de seus aspectos, sem repetir, de algum modo, seus numerosos comentadores, psicanalistas ou ferrenhos adversários da Psicanálise.
¾ Freud, o Judeu-Ateu. Todavia, em sua visita a Sociedade Bnei Brit, Freud declara: “Devo a minha natureza judaica as duas qualidades que chegaram a me ser indispensáveis no longo caminho de minha existência”. As qualidades aludidas são a tenacidade e a independência intelectual. Não esqueçamos que, até os 4 anos de idade, quando irá residir na Áustria de língua alemã, Freud falava o üdiche (derivado de yid ou jüde, que significa judeu), dialeto alemão da Idade Média, escrito através de caracteres aramaicos. Em alemão foram efetivados seus estudos mas, o üdiche é sua língua materna. É entre os Bernays que Freud encontra Marta, cuja família de rabinos, manteve laços de amizade no meio cultural judaico, ao contrário de numerosos judeus semi-assimiliados. Ora, se todas as culturas antigas tentaram compreender o estranho fenômeno do sonho, o judaismo não constituiria exceção. Entretanto, no capítulo primeiro da Traumdentung, não consta, na bibliografia arrolada, qualquer alusão a páginas muito significativas do Talmud, tais como "um sonho é a sexagésima parte de uma profecia”, ou “um sonho não interpretado é como uma carta não lida”. Mezan não refuta a inspiração judaica na construção teórica de Freud, assegurando como eventual a semelhança entre o Talmud e a Psicanálise, insuficiente para apagar “a enorme diferença existente quanto aos espaços de enunciação”, afirmando que ambos não falam a partir do mesmo lugar. Para ele, as correlações efetuadas por Haddad, dentre outros, como Lacan (1967), não são mais que meras analogias. A nosso ver, são frágeis seus argumentos, que mais corroboram que contrariam Haddad. Este, comenta o ritual estabelecido por Esdras, o qual, reinventou a doutrina de Moisés, suprimindo o profetismo, reconstruindo o Templo, mantendo o culto sobre sacrificios de animais e, um segundo ritual – a leitura semanal do livro de Moisés em cada comunidade. Leitura que inaugura o estudo do Livro, o Talmud, como um magistério comparável à Academia platônica ou ao Liceu aristotélico. Daí, o Midrash, cuja raix, darásh, significa buscar, ........, investigar, denominando o conjunto de comentários à Biblia efetuado pelos eruditos. Comentários que subvertem a letra do texto através de um jogo de palavras em diferentes níveis de leitura, definindo uma verdadeira “arte de ler”. Em Freud, lemos: “Dois pensamentos aparentemente sem relação alguma um com o outro, mas que se seguem de modo imediato, formam um todo que é preciso adivinhar” (1900). A Psicanálise herda, pelo menos, uma arte particular de ler o sub-texto, hoje trivial, mas que representou uma verdadeira dessacralização, uma vez que esta arte deveria ser utilizada somente na leitura da Palavra. O “livro dos sonhos” era como Freud gostava de se referir a Traudentung. Numerosos são os exemplos arrolados por Haddad, cuja leitura é recomendável até para flagar fontes da releitura lacaniana. Deixemos de lado tal controvérsia e enveredemos por outro víés – os mitos gregos.
¾ Freud e a Urdoxa Nas primeiras incursões de Freud no campo da Antropologia, Cartas 56, 57 a Fliess (Vol.I), observa-se a tentativa de fazer equivaler as histéricas, as bruxas medievais, as festas sabáticas e a proposta de estudar “com afinco ”o Malleus Maleficarum, pressupondo elos entre uma religião demoníaca daquela época e a paranóia. Posteriormente, tal reflexão irá abranger as neuroses em geral (1908). Combater de forma eficaz o demônio, a irracionalidade, converte-se no objetivo fundamental; a meta primeira é a verdade da ciência. Contudo, a vida não é cientifica, ou, dito de outro modo, “cinzentas são todas as teorias e verde é a árvore da vida” (Goethe, citado por Freud). A pulsão, o constructo mais original de Freud, seu Grundbegriff é referida na Metapsicologia (1915), como a “nossa mitologia” e, nas Novas Conferências (1932), ele ratifica: “As pulsões são seres místicos, grandiosos em sua indeterminação”. E, a partir do conceito de pulsão de morte, a sobredeterminação ordenadora das representações psiquicas, é abandonada. A mais primária das pulsões é muda, ou seja, sem representabilidade, caos efervescente, pura dispersão, desligando as Vorstellungen amalgamadas por Eros, silencia o alarido da vida. A ela se deve a novidade, a criação, porquanto cabe-lhe ensejar novas articulações. “O Daimon grego”, elemento demoníaco a ser “domesticado”, con-torna o vazio do objeto perdido para sempre. O objeto a de Lacan. Busca incessante da satisfação a qual, todavia, esgotasse no próprio conceito. “Konstantcraft” o que, de imediato, retira qualquer aproximação aos instintos, os quais, uma vez satisfeitos, declinam sua pressão. Relativamente aos mitos, não podemos esquecer o único mito moderno, “Totem e Tabú”, de 1913. Assim, cabe um olhar regressivo aqueles tempos originários acima citados, para o que, seguiremos o Professor J. Brandão. Certamente Freud não ignorava o existência da “cidade-médica” de Epidauro, centro cultural e esperitual, onde Asclépio ( o Esculápio latino), praticava a medina no recinto sagrado do Hi''eron, deus da “nooterapia”, que purifica e transforma física e psiquicamente, isto é, a cura pela mente. No pórtico, a inscrição: “Puro deve ser aquele que entra no Templo perfumado”. Buscava-se a “metonoia”, a modificação dos sentimentos através do “Gnothi s'autón”, o conhece-te a ti mesmo socrático. Purificação significava pensamentos sadios. Curando a alma, curava-se o corpo, pois, cabia aquela responsabilizar-se pelo corpo em seus descaminhos. Dito de outro modo, catarse. Não eram usados medicamentos, senão o juízo e a intervenção divina. Os sacerdotes emprestavam grande importância aos sonhos, tidos como manifestações das divindades. Uma hierofania, quando Asclépio vinha visitar e tocar as partes enfermas do sonhador. Freud, que recolhera de Platão a hipótese da reminiscência, propondo-a na etiologia da histeria na qual se “dá a ver” o sofrimento neurótico em uma cena corporal, deixaria de usufruir daquele modelo? Mera coincidência ou prolongamento “científico” a Psicanálise? A Traundentung desvela Hipno, do grego Hipnós, do latin “summus”, sono. Caos, vazio primordial, gerou por partenogênese Nisc e Erebro, na primeira geração dos deuses, na Teofonia de Hesiódo, organizador, em genealogias, dos mitologemas da Hélade. Note-se que, o pensamento cosmogônico desenvolvia-se ciclicamente, de baixo para cima, das trevas para a luz. De Nisc, a Noite, nascerá a luz radiante; de Érebro, a escuridão profunda. Trevas superiores e trevas infernais. Não evocam o “si negueo superos, acheronta movebo”, epígrafe da Interpretação dos Sonhos? Simbolizando o inconsciente, Hipnos, irmão gêmeo de Thânatos (de eterna juventude), um Ovídio habita o reino dos Cimérios. Este, num estranho palácio onde tudo dorme e, de onde o deus comandava os sonhos, seus filhos, um número incontável, destacando-se Morfeu, que toma a forma de todas as criaturas. Não são assim as imagens oníricas, plásticas, figurações incontáveis, encadeadas segundo a lógica do processo primário? Hipno – símbolo do vôo silencioso que escapa à percepção do sonhador, alado, percorre rapidamente o mundo, adormecendo todos os seres. Conta-se dele que, apaixonado pelo lindíssimo pastor Eudínion, concede-lhe o dom de dormir com os olhos abertos para poder olhar, dormindo, nos olhos do amante. Devaneio... Hipno é, ainda, o sonho, a aspiração, sendo representado por uma cabeça esculpida, tendo do lado direito asas, ao invés de orelha. Asas cuja poética remete a Hermes, de sandálias aladas, que preside as estradas, não se perdendo nas noites. Mensageiro predileto dos deuses, um deus psicopompo, condutor de almas, cuja astúcia, inteligência prática e invisibilidade, aliadas à sabedoria das ciências ocultas, viaja célere por toda parte. Sonho, “guardião do sono”, em Freud, recondução da libido a um estádio primário, narcísico, que propicia a satisfação alucinatória do desejo, verdade alada daquele que dorme. Asas de Hipno-não insinuam a horkäpse do grafo constante no Ego e o Id? “Os ouvidos são, no campo da inconsciente, os únicos orifícios que não se fecham “(Lacan 1979). Aspecto importante do sonho, apontado por Freud, é a existência de um “umbigo', ponto no qual o emaranhado de pensamentos oníricos não pode ser desemaranhado. Umbigo, “omphalós”, considerado na mitologia como o centro do mundo, Sarça Ardente, Santo dos Santos, intuído por Moisés como o “buraco” onde seriam engastadas as Tábuas da Lei. Lugar do “Unerhant”, do não-reconhecido. Presença do caos. Custa a crer que Freud esgotasse tal referência apenas como o lugar limite da interpretação. Embora ignorada a etimologia de Delfos, os gregos sempre a relacionaram com “delphis”- útero, cavidade misteriosa para onde descia a Pítia (Pitonisa), para tocar o “omphalós”, antes de responder aos consulentes. “Stomion”, que tanto significa cavidade como vagina. Daí o umbigo ser tão carregado de sentido genital, como se observa no Cântico dos Cânticos : “uma taça feita em torno, que nunca será desprovida de licores”. (CT, 7, 1, 2). O valor deste acidente corporal pode ser constatado em numerosas estatuetas africanas, representando-o em proporções gigantescas, maiores que o membro viril. Rosolato, (1978), considera-o como a marca vestigial do laço com a mãe, do mesmo modo para ambos os sexos, remetendo a mais arcaica e vital das relações e à primeira separação. E mais, este orificio obturado, esta cicatriz, exerce função enigmática para a criança, por não sugerir nenhuma utilidade, senão a simbólica do centro. Constitui a configuração de uma perda que a criança não consegue decifrar. O umbigo do sonho articula-se ao desconhecimento fantasmático de um elo perdido no desejo impossível de totalizar. Reino do caos, punhal de morte, de restos eróticos desvinculados, cachinho de muitos egos, traços imemoriais, filofenéticos. Nascemos id-otas. Psíquica e fisiologicamente pré-maturos. A maturidade nada mais é senão a construção ilusória do ego que apenas alcança a Relitait e nunca a realidade efetiva (Wirklichheit). Nossa realidade é “maya”, narcísica. Surrealismo: é nos sonhos que despertamos para o significativo. Neles somos asas/aurículas – orelhas e pedaços cardíacos. Ícaros/senhores do espaço/tempo, domínios do ....... suspeitado que o despertar acorrenta-Prometeus-na nuduz do incognascível, em torno do qual a vida guia e nos revira. 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