Contribuições do pensamento de Henri Atlan à Psicanálise Ana Maria Coutinho Aleksandrowicz 1
Este artigo apresenta algumas idéias de Henri Atlan como contribuição a um melhor entendimento das possíveis relações entre a Psicanálise e as novas tendências interdisciplinares, com ênfase a seu conceito de “intercrítica” e a um enfoque auto-organizacional do Inconsciente.
This article presents some of Henri Atlan’s ideas about the possible relations between Psychoanalysis and interdisciplinary trends. It emphasizes his conception of “intercriticism” and indicates possible connections between Self-Organization theories and the concept of the Unconscious in Psychoanalysis.
“Raramente sinto a necessidade de síntese. A unidade deste mundo parece-me tão auto-evidente, que não precisa de ênfase. O que me interessa é a separação e fragmentação em suas partes componentes daquilo que, de outro modo, reverteria a uma massa incoada.
Freud a Lou-Andreas Salomé, 30.7.15 . Correspondência completa.
(...) o grande feito da psicanálise foi reunir a psicologia acadêmica estéril à vida, e estabelecer como princípio de seu método científico a absoluta integralidade de cada indivíduo (...) Se neste intercâmbio a marca da psicanálise – a honestidade consigo mesmo e com os outros – permanecer imaculada, tudo (...) estará bem e é uma alegria ver até mesmo ‘irmãos’ assim envolvidos num conflito mútuo.
Lou Andreas Salomé a Freud, 30.6.16 . Correspondência completa.
Caleidoscópios e a Interdisciplinaridade
Vivemos tempos escorregadios. Diante de dilemas existenciais que se multiplicam – em encruzilhadas onde se tornam indistintas as influências atordoantes do político e do econômico refletidas no social, os vetores intervenientes da genética e/ou do último fator de risco divulgado e a responsabilidade pela ação que cabe ao psiquismo – tende-se a soluções acomodatícias. Com freqüência, tentando sintetizar e intermediar as respostas sempre urgentes a exigências de origem diversa – mas de impacto maciço e uno – os indivíduos trivializam contrastes e opções e deixam-se levar pelas modalidades melhor automatizadas de seu funcionamento corpo/mente usual, sem espaço interno mínimo que lhes permita o manejo satisfatório dos referenciais de identidade que teria guiado sua escolha. Neste contexto caótico e premente, que novas estratégias íntimas seriam interessantes para auxiliar o desenvolvimento da autonomia psíquica, vocação visceral da Psicanálise?
O diálogo com outras disciplinas é, atualmente , indispensável a qualquer linha de investigação, visto que a tônica impressa ao espírito – inclusive no seu núcleo epistemológico ( Laudan, 90) – da pesquisa acadêmica frisa as interconexões entre polivalentes e subdeterminadas causas, equivalências e efeitos, o que se potencializa, beirando paradoxalmente o incomensurável, em termos do ser humano. Mas, quando se busca uma reflexão auxiliar aos temas da Psicanálise, deparamo-nos com também hiperbólica pletora de possibilidades. Em primeiro plano, aos acelerados progressos das Neurociências ( dentre as quais realça-se a Neuroquímica) unem-se as interpretações sintéticas da Filosofia da Mente – herdeira dileta da Filosofia Analítica –, ofertando ao problema corpo-mente explicações de cunho cientificizado e soluções rápidas para o sofrimento psíquico ou mesmo a inadequação individual/social. Estão, igualmente, disponíveis contribuições acessórias da Física ( Mecânica Quântica ? Teoria do Caos?) e das Matemáticas ( Teoria dos Jogos ?), das Ecologias ( das idéias ? Hipótese Gaia?) , Biologias ( Projeto Genoma x Embriologia/ epigênese ?) e da plêiade de promessas das Medicinas alternativas.
Embora algumas destas fronteiras continuem sendo defendidas aguerridamente, a orientação mais difundida visa à convivência mutuamente colaborativa. A regra em voga do jogo aconselha informação extensiva sobre áreas que entrelacem limites, de maneira a permitir a abrangência de seus multifacetados pontos de vista e evitar reducionismos. (Sub)disciplinas e especializações híbridas proliferam nas brechas improvisadas por uma almejada superação de antigas barreiras, como as que separam ciências naturais e humanas, na procura de se recuperar uma perdida harmonia através de uma “nova aliança” ( Prigogine, 84) inter ou mesmo transdisciplinar.
As melhores intenções nutrem esta tendência, como a de afinal propiciar uma compreensão ampla, que, no detalhe e no conjunto, nos localize, em meio à “complexidade” inerente aos diferentes níveis de informação/ realidade com que nos deparamos. No ápice extremo do espectro transdisciplinar, proclama-se a inerente unidade de tudo que existe e do que podemos entender, e sugere-se que, filiando-nos todos a esta diretriz geral, através do esforço conjugado de cientistas, filósofos, psicólogos, artistas, economistas etc. poderia vir a ser elaborada uma estratégia de atuação bem integrada, viável psíquica, social e econômicamente, cientificamente embasada e eticamente justificada. Morin (91, 96) é , talvez, o mais conhecido dos defensores deste tipo de enfoque, entre nós.
Semi-subliminarmente, sabemos que as coisas não se passam bem assim. Conforme Castiel (99) assinala, a proposta de integrar as duas culturas, na prática, coloniza uma à outra, na medida em que é capitoneada pelas tecnobiociências que – no que diz respeito a nossa área de interesse – se arvoram o direito de, sob o pretexto de fornecer instruções comprovadas cientificamente para a saúde e a vida, “proporcionar significados para as grandes questões da existência humana (...) usualmente tratadas pelas tradições místicas e religiosas e pela filosofia” (pp. 155;156). Naturalmente, isto não funciona. Os mitos que dependem de artefatos externos ao que a imaginação de indivíduos e grupos sociais ao longo dos séculos estabeleceu como desafio e consolo adequados são por demais provisórios, instáveis e insatisfatórios. Não por acaso, retoma-se O Mal-Estar na Civilização (Bauman, 97, dentre outros), esmiuçando-se pistas para o entendimento do acelerado processo de alienação do homem de seus núcleos significativos no último século.
Ecoando Freud (29: 111; 112), se, através de sua ciência e tecnologia, o homem conseguiu suficiente domínio da natureza para sentir-se quase como um deus – incorporando os ideais de onipotência e onisciência que neste projetara – tornou-se entretanto “(...) uma espécie de ‘Deus de prótese’. Quando faz uso de todos os seus órgãos auxiliares, ele é verdadeiramente magnífico; esses órgãos, porém , não cresceram nele e, às vezes, ainda lhe causam muitas dificuldades (...e) atualmente o homem não se sente muito feliz em seu papel de semelhante a Deus. ” Freud, entretanto, deixava ainda espaço para a esperança – que podia animar ( ainda que ilusoriamente) este homem – de que
“ inimagináveis grandes avanços (...) aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus.”
Em nossa sociedade “supermoderna” ( Augé, 92), de acúmulos que bem depressa viram restos e precisam ser substituídos uns, descartados outros ( e não há mais sotãos que permitam um intervalo para a memória entre os dois movimentos) – a sina do “homem-deus protético” freudiano não podia ser pior – inclusive porque, adaptado à continuação ininterrupta do circuito vicioso de impermanências, banaliza-se, funde-se a uma “ mentalidade da sobrevivência” impessoal (Lasch, 86). Numa reversão total da projeção mítica citada, jamais possuindo o que já está perdido até em termos de aquisições futuras, é , pois , a sua potência para fazer face aos imperativos da vida que está em questão, no sentido absoluto do termo, no tempo e no espaço. Dada a assimilação de suas dimensões internas às externas, do simbólico ao operacional, do que é do reino da inspiração e da intuição ao império da razão e do cálculo, ele se percebe dependente de suas auto-instrumentalizações identitárias apenas na mais tênue de suas camadas superficiais de consciência, donde não se promove dinâmica inconsciente suficiente ativa que lhe permita discernir sequer a responsabilidade por sua própria individualidade.
No plano da experiência emocional, território psicanalítico de eleição, indaga-se se, face à complexidade inibidora de fatores de todas as ordens implicados em cada atitude a ser tomada – sempre sob a égide vertiginosa de mudanças tecnológicas e correções consecutivas às previsões probabilísticas – , as configurações psicológicas teriam sido tão afetadas por modelos “simplificadores” (Balandier, 94) que ter-se-iam alterado as condições para o diálogo consciente-inconsciente, na reestruturação da identidade, conforme este é reconhecido pela Psicanálise. Assim sendo, pode ser pertinente reler alguns conceitos psicanalíticos à luz das investigações recentes sobre cérebro e mente ( no seu mais lato sensu), conforme expressas nas vertentes interdisciplinares vinculadas às pesquisas tanto científicas, quanto antropológicas e das teorias de Comunicação, de maneira a permitir revisões relevantes a seus constructos. A tradição psicanalítica endossa este procedimento. Ferenczi (28: 3 ; 4) justificava sua deliberada mescla de pontos de vista próprios às ciências naturais e às do espírito baseando-se no fato de que, ao colocar o funcionamento psíquico na dependência de processos físicos, Freud teria realizado importante e fecundo avanço no domínio da metodologia científica. Dentre os pioneiros da Psicanálise, que, num movimento pendular ao contemporâneo, fincava então seus alicerces teóricos na ciência, eram bem vindos etnólogos ( Róheim), advogados (Sacks), educadores (Zullinger, Moor), literatos e críticos de arte ( Sharp, Kris, Rank) ( Alexander, 66).
Entretanto, a cautela que acreditamos ser necessária à Psicanálise em seu intercâmbio com os estudos interdisciplinares não é devida a nossa recusa ao que concordamos ser atitude de abertura e flexibilização imprescindível. Parece-nos ser pré-requisito primordial para um diálogo efetivo, respeitoso e produtivo alguma informação abalizada acerca das marcantes ou sutis distinções das várias orientações interdisciplinares entre si, de modo a ser feita escolha de vínculo coerente com a proposta da pesquisa e seu alcance pretendido. Ao apresentar algumas das idéias de Henri Atlan – em especial as de sua primeira fase, de pesquisador da disposição interdisciplinar que ficou conhecida como a da Auto-organização – divulgamos um pensamento original, consistente e sofisticado, que, a nosso ver, permite sustentação metodológica adequada para a participação teórica da Psicanálise neste debate, sem qualquer perda de sua especificidade essencial.
A Intercrítica Atlaniana
Nascido em 1931, na Argélia, Henri Atlan é médico e biólogo, professor de Biofísica , com numerosos trabalhos na área de biologia celular, imunologia e inteligência artificial. Elaborou uma teoria de auto-organização dos seres vivos. Doutorou-se , também, em Ciências do Estado (73, Paris), é Diretor na École des Hautes Études en Sciences Sociales e é membro do Comitê Consultivo Nacional para as Ciências da Vida e Saúde, em Paris. Tem-se dedicado à Filosofia e Ética da Biologia. Por outro lado, é estudioso do Talmude e desenvolve uma investigação dos princípios da identidade judaica, para além de seus determinismos históricos recentes.
De acordo com a sua multifacetada formação, Atlan, ao longo de sua obra, justapõe, sempre estabelecendo limites precisos dentre eles, conhecimentos de biologia, cibernética e termodinâmica – estes mais diretamente ligados a seu modelo de auto-organização dos seres vivos – aos das ciências humanas e ainda aos da Filosofia e do Mito (que ocupariam lugares à parte dos anteriores). Esboça uma série de hipóteses sobre os mecanismos e/ou movimentos que determinariam variáveis mais ou menos interessantes para o funcionamento dos diferentes sistemas interligados nos organismos complexos. Em se tratando de sistemas humanos, capazes de consciência de si, seriam consideradas variáveis interessantes aquelas que permitissem um encontro harmonioso entre verdade, liberdade individual e justiça social (que Atlan relaciona diretamente à responsabilidade).
O autor indaga-se, dentro desta tônica, se o entendimento dos sistemas humanos exclusivamente pela via da razão – ou da ciência – seria suficiente para assegurar a consecução do objetivo desejado, sugerindo ser mantida, como procedimento de pesquisa, uma intercrítica entre aquela e a via do mito, de modo a fazer surgir o homem-jogo, auto-transformador e inventor de significados. A Educação deveria, levando em conta o amplo espectro de possibilidades de expressão dos processos vitais, entendidos por esta dupla vertente, auxiliar o indivíduo-grupo social nas escolhas que lhes fôssem relevantes para a vida, em termos sempre particulares. Para Atlan, na Educação devem ser consideradas as várias dinâmicas consciente/inconsciente, uma vez que as possibilidades coexistem com os riscos a elas inerentes , em sintonia com a definição atlaniana de vida por oposição a morte.
Atlan revela-se, pela peculiaridade de seu enfoque tanto aos aspectos biológicos quanto aos éticos das peripécias do existir humano, um autor de importância ainda negligenciada para as discussões quer relativas à perspectiva epistemológica/ metodológica ensaiada pelas interdisciplinaridades, quer situadas nas sinuosas linhas de demarcação entre homem e máquina, nos seus mais sutis e intrincados recortes. Suas idéias , sempre firmemente ancoradas em alguns eixos reflexivos bem delimitados, expressam-se como colóquio com pensadores revolucionários – cujas brilhantes descrições da realidade serão surpreendidas ao longo de múltiplos tempos/espaços do Saber ( ou Sabedoria) – , dentre os quais Freud ocupa local proeminente, o que tem servido como estímulo a enriquecedores diálogos de Atlan com psicanalistas.
Podem ser abordadas, como constituindo dois momentos, as contribuições de Atlan como teórico da auto-organização (79) – onde tem reputação consolidada como cientista – e como o que chamamos “filósofo das Possibilidades” ( 86 a 99) – onde problematiza extensivamente sua hipótese das diferentes racionalidades. Entretanto, é mister ressaltar a sutileza desta divisão, que desde logo proclamamos artificial: as posições centrais de Atlan permeiam toda o seu projeto, e mantêm uma constância – mas não continuidade ! – excepcional, desde o seu início. Aqui e ali, sua intenção declarada – não obstante a confessa sofisticação extrema de sua escrita, que lhe reduz a transparência – é que o pensar sirva à prática. Sua crítica às falhas nos contornos e à absorção pelos “modismos” intelectuais que viciam muitas das teorias da “complexidade” – mais ainda do que as lacunas em suas argumentações teóricas – deve-se a terem como efeito parca eficácia, o que, contraprodutivamente, diminui a credibilidade na interdisciplinaridade. É justamente para facultar a eficiência da expressão conjunta que Atlan insiste nas demarcações nítidas nos diálogos ciência-mito, experiências objetivas-subjetivas e indivíduo&grupos sociais-normas.
Atlan propõe uma atitude de intercrítica nestas interlocuções, em que sejam privilegiadas as diferenças e não as similitudes dos pontos de vista, tarefa esta bem mais complexa em sua realização do que surge-nos a uma primeira apreensão. Corresponderia a um novo pensar que levasse em conta que se as coisas da natureza permanecem inalteradas, devemos modificar a forma de utilizar nossa razão (ou nossas várias racionalidades) – que entretanto funciona (m) segundo imutáveis princípios de identidade e de não-contradição – para “explicar” o real (86:11). A apreensão do sentido de cada contexto se dá, repita-se, pelo contraste entre os dois discursos que, ao descrevê-lo, remetem a universos conceituais distintos, cujos elementos devem ser recombinados de acordo com o interesse prático da situação em foco.
Enquanto ao pensar científico corresponde a racionalidade aceita usualmente como tal, Atlan associa ao que entende como “racionalidade mítica” o mito e a arte, expressões do Inconsciente individual e de grupo, a mística, o dogma religioso, a metafísica (86) e “ questões (...) pormenorizadamente analisadas ao longo de séculos de atividade filosófica” (p.10), como a finalidade e o animismo ( para cujo entendimento pertinente, a seu ver, é necessária sua re-problematização no espaço intercrítico). Atlan vai tomar a Ética por emblema para deixar clara a radicalidade de sua posição Para ele, a Ética se insere no registro da racionalidade mítica pois “ (a) Ética, como princípio que orienta, dirige e regulamenta os comportamentos na realidade vivida das sociedades existentes não tem a sua origem num conhecimento racional, de tipo filosófico e científico, que caracteriza as nossas sociedades ocidentais modernas. ( 86: 267) ( refere-se ao tipo de filosofia que rege a lógica e a epistemologia e não a metafísica). Ao invés, a Ética vem “do outro lado”, pois “ diz respeito a um projeto, a um querer, muito mais do que ao conhecimento (e) exprime-se neste conjunto de desejos, de necessidades, de representações, conscientes e inconscientes (...) só podendo ser o objeto de uma reflexão (...) depois de ter-se imposto como conjunto de regras e de comportamentos vividos.” (86: 228).
Neste sentido, Atlan segue a tradição kantiana no que esta determina que a filosofia crítica deve impor limites às pretensões de conhecimento da metafísica, pois devemos distinguir o domínio do tipo de razão que produz conhecimento e possui objetos de experiência – podendo constituir desta forma a ciência – da razão especulativa, cujo domínio é o das questões insolúveis, entretanto inevitáveis (relacionadas à metafísica). As soluções para as pretensões da metafísica estariam no campo da razão prática, ou seja, não ao alcance de nosso conhecimento, mas da ação e da moral. ( Japiassu e Marcondes, 98: 180) Entretanto, faça-se a ressalva de que o tipo de racionalidade (mítica) que Atlan vincula ao assim denominado “irracional”, ao “recalcado (que) não desaparece (...), ( a)o caráter central e obrigatório da intuição primeira de nosso corpo, do nosso meio biológico e social” ( 91: 13), em muitos aspectos se distingue da razão prática kantiana.
Ressalte-se, ainda, que Atlan não pretende fazer uma “teoria de pensamento crítico”, sublinhando que a crítica entre as diferentes racionalidades deve dar-se, não de forma simultânea, mas alternativa e recíproca, de modo a ser capaz de expressão renovada na prática, “evitando assim constituir-se num domínio autônomo e globalizante, que ocuparia o lugar de uma teoria – forçosamente a crítica – do pensamento crítico”. A atitude crítica deve ser mantida, assim, “ não em nome de uma metateoria, ou de uma metafísica transformada em ‘ciência de base’, mas simplesmente pela distância que o vaivém entre uma sabedoria e outra permite manter em relação a cada uma delas.” (86: 19 ; 222).
O que está em questão nas diferentes formas de racionalidade – a científica e a mítica 2 – é a especificidade de seus fundamentos e objetivos. Embora estes possam convergir, no momento da prática, em termos de se dinamizarem para assim aumentar chances de eficácia, enquanto gênese-metodologias-finalidades são essencialmente incomensuráveis. É, aliás, justamente tal impossibilidade de tradução imediata que lhes faculta a mútua inseminação. Atlan credita grande importância a um espaço NAS fronteiras estabelecidas entre as racionalidades por onde se dá o trânsito a que chama “intercrítica”: esta consiste numa atividade de utilização das interfaces quais espelhos, que permitam a cada racionalidade refletir sobre seus valiosos pontos duvidosos, reformulá-los, reapresentá-los, erigindo, deliberadamente, “barreiras” entre suas explicações, recriando-se e reconstituindo-se. Pelo tipo de discordâncias/alianças férteis que promove, a neutralidade inerente ao caráter de intervalo do espaço intercrítico se torna funcional, facilitando a emergência da solução adequada para determinada situação, quando forem solicitadas decisões que dependem dos pareceres de diversos saberes.
E qual seria para Atlan (86) o lugar da Psicanálise no diálogo intercrítico proposto? Num primeiro plano, ele compartilha o entendimento de Castoriadis (99), que, centrando na sua atividade prática o interesse da Psicanálise, nela restringe um “objetivo de conhecimento” para ressaltar o “ objetivo de transformação”, o que, imediatamente, preserva sua permeabilidade à maior riqueza de inspirações possível e sua autonomia na operacionalização destas. Vinculada, sob este aspecto, à racionalidade mítica, a Psicanálise enfrenta o desafio de ajudar a responder ao imorredouro anseio humano por liberdade e justiça, através da mobilização contestadora, exercida por seu específico referencial simbólico de intervenção, de comportamentos e valores individuais quando estes “ resultam (...) de determinações inconscientes e mecânicas do desejo que (...) dão forma aos valores sociais (...)”. Insurgindo-se contra o panorama de banalização generalizado, conforme o já descrito neste artigo, Atlan sugere à Psicanálise, em seu exercício clínico, a opção de revitalização da importância da racionalidade mítica em contraposição à científica quando esta impõe sua estrutura reprodutiva ao espaço interno daquela e utiliza a “mecânica do desejo (...) para afundar a diversidade das pessoas na uniformidade e na unidimensionalidade de um desejo socializado” (Atlan, 91:16).
Por outro lado, Atlan considera recurso auxiliar epistemológico indispensável a decisão de Freud , que, ante o estatuto freqüentemente ambíguo, entre a Ciência e o Mito, da Psicanálise, define-se pela aliança com aquela (ao contrário de Jung). Para Atlan, se, do ponto de vista do conteúdo, a postura freudiana é indefensável – pois os objetos das indagações psicanalíticas , entre outros, são também os da mitologia – ela justifica-se se nos ativermos ao valor do estabelecimento de um método e ao rigor da perspectiva. Como conseqüência de, a partir de sua própria gênese, a Psicanálise ter-se recusado a utilizar diretamente tradições do pensamento extra- científico já existentes ( quais a mandala e o I-Ching, por exemplo) e insistido em associar o modelo psíquico aos biológicos e físicos, estabeleceu-se, firmemente, como pressuposto para sua avaliação, enquanto conhecimento, não “ (...) a verdade ou erro desta ou daquela de suas teorias, mas sim a maior ou menor fecundidade de seus respectivos fracassos” ( Atlan, 86: 188), dentro, pois, do espírito epistemológico da ciência contemporânea.
Dado o seu respeito pela “regra do jogo da investigação científica” , Freud propicia a seus argumentos as condições para o debate no fórum acadêmico, mesmo que em ligeira defasagem com algumas das convenções deste; é assim, por exemplo, que o princípio da atemporalidade do sistema inconsciente , justamente pela pretensão à cientificidade da teoria maior na qual se insere, conquistou espaço para ser considerado seriamente não obstante seu desafio implícito à lógica causalista então dominante no cenário intelectual da Biologia e da Psicologia .
Nos dias atuais, para Atlan, a Psicanálise encontra-se numa situação bastante semelhante. É junto às Teorias da Auto-organização – cuja especificidade interdisciplinar detalharemos a seguir – que seus conceitos encontram oportunidade para diálogos fecundos com aqueles da Física, da Biologia e da Cibernética, dos quais podem emergir renovados, de forma a propiciar hipóteses valiosas para a constante ampliação do conhecimento psicanalítico, mantendo a produtividade da escola. Entretanto, deve-se ter sempre presente que há uma área de interseção, entre teoria e prática, na qual evidencia-se só ser este mesmo conceito inteligível plenamente em seu exercício terapêutico, com o qual entretanto não deve confundir-se ( mesmo porque são as falhas em sua aplicação à prática que alimentam sua fertilidade) – sendo esta, pois, em termos de Psicanálise, a preciosa zona da ruptura, na qual se processa a intercrítica atlaniana.
Voltando à vocação prioritária da Psicanálise (segundo Castoriadis), lembremo-nos que, enquanto prática ( donde também servindo à dinâmica intercrítica), ela se aproxima particularmente da racionalidade mítica , quando, ao lidar com questões da vida, simbolizadas no corpo e na alma feridos, passa a partilhar “ o destino de todos os métodos de cura, tomando o lugar deixado vago, junto ao paciente, pela magia e pela religião” (86: 186). Mas não deixa de utilizar, então, seu referencial científico. Em consonância com a distinção absoluta entre vida e saúde enfatizada por Atlan (94), as mesmas/ diferentes questões relativas ao sofrimento são aqui abordadas enquanto problemas de saúde. Nestes termos, “(a) doença e a saúde constituem sistemas complexos (onde) a informação circula através de numerosos níveis de organização, desde o das perturbações bioquímicas e moleculares até o do sistema somático ou psíquico no seu contexto sociológico” ( 86: 185), devendo as contribuições das diversas disciplinas que cobrem este vasto espectro de estudos ser aproveitadas a partir de suas eventuais convergências com a teoria psicanalítica.
É nesta área relativa a sua racionalidade científica que evidencia-se a utilidade para a teoria psicanalítica da contribuição de experts de outras áreas , aqui incluída sua condição de sugestões inéditas, frescas , a alguns de seus dilemas teóricos. A especificidade da Psicanálise é garantida não por seu fechamento a estas influências revigorantes – tão apreciadas em seus primeiros tempos, como já vimos – mas sim por ser seu o privilégio e sua a responsabilidade de dar conta do desvelamento constante, existencialmente assumido, do que Atlan (86) denomina a ambigüidade por ela corporificada das relações entre Ciência e Mito. Ao invés da escolha possível ( ou inerente) a outras linhas de investigação e/ou experiência humana quanto a sua vinculação a esta ou aquela racionalidade, a atividade plenamente psicanalítica se processa no cerne mais estrutural da intercrítica, exigindo de seus praticantes/ pesquisadores um permanente trânsito através das brechas sempre cambiantes entre as ( também provisórias) propostas de entendimento delineadas pela Ciência para a saúde ( física e mental) e a força transformadora das intuições compartilhadas na Clínica, inevitavelmente tanto mais ousadas em esperança quanto mais consoantes à natureza imprevisível da vida , oriundas do mesmo Instinto que guia a Arte e a Magia.
Sob esta dupla perspectiva, se é essencial para a Psicanálise, enquanto investigação científica, a polêmica interna/externa apaixonada, o entrechoque constante com as demais disciplinas que a (re)formam, é-lhe solicitado, éticamente, um compromisso de outra ordem, em termos da integralidade da vontade, do empenho pela real 3 identidade, bem de acordo com as palavras de Lou Andreas em nossa epígrafe ( observe-se como ela aproxima, ambivalentemente, “princípios” e “marcas” de ordem ética de uma proposta científica) . Só assim a Psicanálise produzirá, em sua seara específica de cultivo, o psiquismo e/ou a alma humana, o fruto por cuja germinação a intercrítica, como esforço em comum, labora : a eficácia da expressão na prática de um objetivo uno/multifacetado de autonomia e responsabilidade , universal enquanto preservação de valores humanos, relativo enquanto redefinindo-os em cada fragmento diversamente vivido por indivíduos-grupos sociais de sua história e suas ambiências.
O Inconsciente e a Teoria de Auto-organização Atlaniana
Dadas as restrições de espaço deste artigo, deter-nos-emos na apresentação de algumas relações possíveis entre a elaboração teórica atlaniana em sua primeira fase – enquanto pesquisa da auto-organização – e a Psicanálise, ou seja, dentro dos parâmetros da racionalidade científica. Neste seu momento inaugural, Atlan permite uma fluidez entre os elaborações das distintas racionalidades maior do que aquela que considera desejável em prol da intercrítica, admitindo , em “caráter hipotético (...), tenta(r) fazer transposições analógicas e diferenciadoras para sistemas humanos (...) de análises de sistemas naturais”. No que se constituiu tema para profícuos debates com psicanalistas, ele aventa, no seu impactante Entre o Cristal e a Fumaça: ensaio sobre a organização do ser vivo (até hoje seu livro mais conhecido), “ algumas hipóteses sobre o respectivo lugar dos processos conscientes e inconscientes em nosso sistema cognitivo, visto, pelo menos em parte como um sistema auto-organizador” ( 79: 11).
Definindo, brevemente, as teorias da auto-organização, em relação às interdisciplinares, das quais fazem parte, podemos dizer que aquelas são as que mantêm uma determinada continuidade de relação com suas origens cibernéticas – que podem ser traçadas desde quando, entre 1946 e 1953, nos Estados Unidos, reuniram-se matemáticos, lógicos, engenheiros, fisiologistas e neurofisiologistas, psicólogos e antropólogos, com a ambição de edificar uma ciência geral do funcionamento da mente ( Dupuy,95). Estes constituíram, então, um projeto arrojado para entender e criar sistemas artificiais autônomos, em paralelo com uma apreensão mecanicista do sistema vivo. Procurava-se principalmente determinar em que condições o sistema – vivo ou não – teria controle sobre a situação em que se inseria ( Idatte,70 ). Esta preocupação prioritária com finalidade, determinismos, disposições, intenção, etc. – em toda a sua gama de terminologias associadas/ associáveis – por ser critério viável por excelência de distinção entre o humano e a máquina pode ser considerada uma das marcas que interliga cibernética e auto-organização.
Esta linha de investigação prosseguiu em duas vertentes. Na de língua inglesa, passou a ser denominada “ciências cognitivas” desde a década de 70-80, através dos estudos sobre Inteligência Artificial e a partir da década de 80, daqueles acerca de Redes Neurais .Mais recentemente, o problema do significado, no que diz respeito aos sistemas humanos, que ficara em segundo plano nestas etapas intermediárias, volta a ocupar o lugar proeminente que tivera na Cibernética (Gonzales, 99). Ao mesmo tempo que encarecem a importância da aplicação da auto-organização no cotidiano ( decodificando, por exemplo, processos deste teor em atividades diárias), em função de seu longo contato com sistemas físicos, os pesquisadores de tais renovados parâmetros tornaram-se atentos para evitar contágios conceituais e metodológicos entre pressupostos das ciências naturais e das humanas que pudessem invalidá-los reciprocamente (Debrun, 96).
Na linha francesa de desenvolvimento da auto-organização, desde logo se incorporou a premência da consideração do papel do significado nos sistemas humanos. Varela (88), dentre outros, tenta dar sustentação epistemológica mais comprometida com seu cunho filosófico às novas idéias. O pensamento de François Jacob, von Neumann e von Foerster influencia o de Henri Atlan assim como o de Morin. Em breve, este definirá um rumo particular – que entre nós tem sido o norteador das assim chamadas Teorias da Complexidade ( embora na França a distinção formal entre teorias da auto-organização e da complexidade não se dê tão depressa). Atlan opõe-se ao “projeto central de Morin, de unificar os elementos dispersos do saber sobre o homem e, para fazê-lo, orientá-los num contexto epistemológico diferente, num novo paradigma”, assinalando um perigo – , em nossa opinião, concretizado em nossos dias – , “ de reificar os novos conceitos – hipercomplexidade, ruído, auto-organização – , a ponto de reduzí-los a um fenômeno de modismo intelectual”. (79: 182).
A teoria da auto-organização dos seres vivos atlaniana, proposta em Entre o Cristal e a Fumaça (79), desenvolve o “princípio da ordem através do ruído” de von Foerster – segundo o qual o ruído, o aleatório, o incidental são indispensáveis à re-organização constante do sistema ( de informação e comunicação ), embora colocando-o, na mesma medida, em risco, caso não consiga assimilar a novidade – , aprofundando-o, no que se refere a sistemas vivos, através de referências e inter-relações teóricas principalmente com a Termodinâmica e a Teoria de Informação de Shannon.
A primeira parte do livro é bastante técnica e oferece comprovações para seu modelo, segundo os padrões escolhidos. Apesar de difícil, sua leitura é indispensável para a assimilação correta do alcance e dimensão de seus constructos científicos : de certa forma, Atlan refaz, atualizando-a e pondo-a em questão, a trajetória iniciada por Monod ( 70 ) que, ao validar a aliança Biologia-Teorias da Informação na explicação da origem da vida, o faz de maneira a imprimir ao termo “programa genético” a conotação forte, que este não mais desmereceria, no curso das reflexões em Filosofia da Biologia que se seguiram. Se Monod utiliza sua argumentação para esvaziar de sentido a vida, Atlan lhe contrapõe raciocínio de equivalente precisão para, ao invés, consagrar a imprescindibilidade do significado, que intensifica-se conforme as gradações sucessivamente mais complexas da auto-organização, desde o sistema simplesmente animado até o humano. São estes referenciais de ordem científica que estabelecem as bases que guiarão o projeto maior atlaniano, o qual , implodindo, sem desrespeitá-los, os limites da auto-organização, irá modular – já em seu segundo momento teórico – as nuances distintivas entre o que é animado, o que é vivo e o que é humano, nas fronteiras intercríticas da Biologia e da Ética.
Na segunda parte de Entre o Cristal e a Fumaça , Atlan procede às acima citadas “transposições analógicas e diferenciadoras” de alguns elementos da lógica das organizações naturais para sistemas humanos, em termos de psiquismo individual e de grupos. Vai tratar da consciência e do desejo nos sistemas auto-organizadores, mostrando como ambos funcionam para modificá-los, assimilando (ou não) ruídos em correspondência com a natureza especial do tempo destes processos em suas relações com o tempo físico
Na quarta parte de Entre o Cristal e a Fumaça , (na terceira, contesta autores que trabalham em fronteiras analógicas próximas às suas) , Atlan promove diálogos entre a nova lógica da auto-organização e a tradição judaica. De um ponto de vista bastante psicanalítico, investiga a identidade do povo de Israel e aquela dos “psicanalistas judeus”, aqui com foco nos “ segredos amorosos” (p. 222) da sexualidade e da paternidade ; em A vida e a morte: biologia ou ética , discute as relações entre a reflexão destes temas por via da “lógica biológica, no contexto da lógica operacional e reducionista da ciência atual, e (pela de) uma possível ética não-trivial da vida e da morte” (p. 12). Nesta comunicação ( de 76), introduz uma posição, que vai ressurgir mais explícita nos seus últimos trabalhos, de separação radical entre os conceitos biológicos de vida e de morte e aqueles relativos ao significado dado pela experiência humana aos mesmos termos. Ao fazê-lo, sugere ser viável uma escolha pela vida – que não negue a morte, pois uma depende da outra, – através da “ integração sexual num código social sublimatório não-dessexualizado”( p. 240), deixando o detalhamento desta proposição em aberto.
Bordejando a Psicanálise, a pergunta que rege as dúvidas atlanianas – pois é sempre num tom interrogativo que ele formula seus enunciados – é : “ a que corresponde o que é sentido por cada um de nós como a fonte de nossa determinação – do nosso programa – , se somos sistemas auto-organizadores em que a invenção e a novidade trazidas pelo tempo que passa provêm, na verdade, de uma acumulação de abalos contingentes ?” ( 79: 115/116). Ou seja: como o novo – inscrito no processo de auto-organização – é possível se a consciência de si em relação à consciência do mundo externo e a vontade de ser em relação à vontade de ação se constituem enquanto persistências, quais as das leis naturais que não se modificam? A partir desta indagação, Atlan vai problematizar o determinismo e sua base na reversibilidade do tempo, o desconhecimento dos efeitos organizadores do acaso, a memória consciente x o querer inconsciente, a faculdade inconsciente de auto-organização e a unidade temporal do passado e do futuro.
Onde quer que Atlan ensaie suas proposições acerca do psiquismo, relendo aquelas da Psicanálise, evidencia-se a importância essencial, como substrato ativo em suas hipóteses, do funcionamento auto-organizacional do inconsciente. Pode-se mesmo fincar aí o eixo que liga sua produção para-psicanalítica à inspiração fundamental de Freud, bem sintetizada na frase de Laplanche ( 70: 307) : “Se fôsse preciso concentrar numa palavra a descoberta freudiana , essa palavra seria incontestávelmente a de inconsciente.” Ressalte-se que mais do que a sua própria contribuição – sempre expressa num teor altamente especializado e consoante um trajeto singular de investigação – Atlan estabeleceu um novo patamar para a pesquisa do inconsciente para psicanalistas interessados em alargar horizontes teóricos/práticos dentro de sua perspectiva interdisciplinar respeitosa à especificidade da Psicanálise já descrita.
Para tal, estes pesquisadores retomam, em primeiro lugar, em perfeita sintonia com a atlaniana, a concepção freudiana substantiva do inconsciente como sistema, já enfatizada por Freud desde 1912, quando, em relação aos atos isolados inconscientes, passa a defini-los por pertencerem a “um sistema de atividade psíquica merecedor de plena atenção” ( p. 334). Em O Inconsciente (1915), são frisadas a autonomia deste sistema em relação ao consciente e suas propriedades específicas em termos de conteúdos, mecanismos e natureza da mobilização da energia : dentre as clássicas características do sistema inconsciente pelo menos as de isenção de contradição mútua e intemporalidade são centrais ao modelo de auto-organização atlaniano. Por outro lado, a inserção do processo auto-organizacional do inconsciente num esquema paralelo mais abrangente de leis na natureza faz eco à afirmação freudiana em uma de suas últimas obras, Algumas Lições Elementares de Psicanálise (1938), a de ser a natureza do Inconsciente “semelhante em espécie a todos os outros processos naturais de que obtivemos conhecimento” (p. 317;318) e de, em relação a ele, “ a consciência (ser) apenas uma ‘qualidade’ ou atributo do que é psíquico, e, além do mais, uma qualidade inconstante” (p.320).
Num segundo passo, que nos lembra a opção pela prática da postura intercrítica atlaniana, é redimensionado o que Strachey ( 69: 186) afirma, em sua Introdução a O Inconsciente , ser o interesse “ prático” ( grifo do autor) e não filosófico de Freud pela “suposição” do inconsciente, que, antes de tudo, lhe facultava “ caminho aberto para uma região imensamente fértil de conhecimentos”. Conforme delineamos na primeira parte deste artigo, são nas expressões dinâmicas de interseção entre consciente e inconsciente que residem as possibilidades de transformação psíquica. Em O Inconsciente , Freud problematiza de diversas maneiras este ponto, por exemplo, indagando-se acerca da relação entre a supressão da repressão e a idéia consciente entrar em ligação com o traço de lembrança inconsciente. Mas ressalta: “ Talvez façamos a descoberta de que (...) a diferença entre uma idéia inconsciente e outra consciente pode ser definida de maneira totalmente diferente” (p. 202), o que, em tempos supermodernos, onde variáveis inéditas se aglomeram em torno da reestruturação da identidade pretendida pela Psicanálise, serve de estímulo a revisões criteriosas, a partir das quais delineiem-se, no sulco dos rumos freudianos, vias de aprofundamento aos dilemas do diálogo consciente-inconsciente pela ótica auto-organizacional.
Numa demonstração da influência das idéias de Atlan no cenário acadêmico francês, no Colóquio de Cerisy, em 1984, reuniram-se, para debatê-las, especialistas de diversas áreas, dentre os quais psicanalistas e filósofos, que apresentaram teses que – tomando por pressuposto o inconsciente como sistema auto-organizacional – revisitaram pontos cardeais da teoria freudiana.
Bela Kohn-Atlan, psicanalista, a partir do que chama “ modelo cibernético” de Freud, revê as clássicas incongruências assinaladas em seu constructo da pulsão de morte, recordando que, então, como um fio condutor a um estatuto de investigação ainda inexistente, ele nos “ convida a pensar que, em sua interação, as pulsões destrutivas tornam-se produtoras de diferenciação” ( 91: 339). De acordo com o princípio de auto-organização pelo ruído, a pulsão de morte é, ao mesmo tempo, de vida e morte, desde que se postule a presença, no aparelho psíquico, de uma redundância inicial ( superpondo uma noção de “sinal” à de “tensão” na dinâmica pulsional). A autora vai desenvolver, neste sentido, amplo espectro de reflexões – que incluem a sucessão auto-organizacional dos mecanismos de identificação, o surgimento embricado da linguagem e da estrutura lógica da consciência e uma interessante hipótese do papel do pré-consciente como elemento de ligação na auto-organização – para “ oferecer um quadro conceitual que ajude a superar preconceitos e dificuldades metapsicológicas como outra apreensão tópica mais rigorosa da difícil noção freudiana de pulsão da morte” (p. 345).
Daniel Sibony, filósofo e psicanalista, em seu artigo O “Complexo” do Inconsciente, compartilha nosso ponto de vista de que Entre o Cristal e a Fumaça “ é um discurso sustentado por uma espécie de princípio do inconsciente ” ( grifo do autor) e acrescenta que teria sido um seu efeito secundário “ munir a prática do inconsciente e a descoberta freudiana de uma espécie de modelo ‘físico’ de caráter científico, a saber, a teoria da auto-organização.” ( 91: 357) Ele promove uma aproximação intrigante entre o conceito de “complexificação” e um “sentido topológico de “complexo” onde se pode descobrir um desdobramento significativo através de blocos de dimensão crescente.” (p. 360). Segundo esta analogia, o complexo de Édipo, por exemplo, é um desdobramento de espaços em formação, de intensidades espaciais crescentes e não uma localização fixada num espaço triangular.
Para um melhor entendimento da fertilidade prolífica do universo atlaniano – e da coincidência desta quer com a vocação de fronteiras da Psicanálise, quer com as necessidades da supermodernidade – é imprescindível, ao menos, a referência a seus recentes encaminhamentos teóricos. De acordo com o seu propósito maior intercrítico, desde 1991, Atlan vem imergindo (94) e agora mergulha (99) nos meandros da racionalidade mítica. Se na década de 80/90, podia-se depositar ainda alguma esperança em que a decodificação dos processos mentais do homem-deus máquina pós-freudiano, por vias precipuamente científicas – quais as esquematizadas nas contribuições da auto-organização à Psicanálise conforme as citadas acima –, permitiria recodificações que lhe auxiliassem a transformação, de lá para cá esta orientação se patenteia insuficiente.
Numa reviravolta face aos vórtices das modernidades, ressurgem, nos escritos de Atlan (99), vocábulos venerandos, que evocam peregrinações por estradas internas desativadas. Outra racionalidade deve ser convidada a participar da epopéia humana, poética, ambígua, restaurando a potência negligenciada do brilho do ouro para embaçar o lustroso nítido dos robôs cibernéticos, que, virtualizados, insinuam-se nos condutos midiáticos e internéticos. Talvez, no impacto intercrítico das duas racionalidades, possa ser redescoberto, em nossos recôncavos íntimos, o homem-herói de si-mesmo, construtor de seus significados e de sua liberdade enquanto indivíduo e participante responsável de grupos sociais, argonauta da transcendência cotidiana a seu material psíquico constituinte bruto, instinto puro, como já nos ensinava o Senhor dos Anéis3 da Psicanálise.
Se Atlan continua a produzir ( tendo já o Tomo II de Les Étincelles de Hazard prometido), a palavra de Freud é atemporal. Que surpreendentes, exigentes, fascinantes percursos nos aguardam, nas encruzilhadas do científico e do mítico, no âmago das intuições seminais de Sigmund Freud e Henri Atlan ?
NOTAS:
1 Psicóloga, psicanalista, mestranda em Saúde Pública na ENSP-FIOCRUZ
2 Em Les Étincelles de Hazard (99), Atlan deter-se-á na discussão de uma “racionalidade filosófica”, acentuando tendência neste sentido esboçada desde 1986, cujo detalhamento não é relevante para as finalidades deste artigo.
3 Com freqüência, Atlan alterna pontos de vista, confrontando-os, entre os estatutos epistemológico de “verdade” e ontológico de “realidade”, associando-os, prioritária (mas não exclusivamente), respectivamente às racionalidades científica e mítica, em termos, obviamente, de busca e não de consecução de suas aspirações.
4 Nos primórdios da Psicanálise, Freud, atualizando um ancestral modelo mítico que tem presidido a formação de grupos representativos em seus contextos históricos, teria criado um Comitê secreto, cujos membros – os primeiros pioneiros – receberam um anel especial de amizade de Freud. Este Comitê teria regido, sob o princípio da absoluta confiabilidade, em prol da sobrevivência da Psicanálise, todas as suas atividades públicas ( Grosskurt, 91).
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