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Sonho, Cinema e Derivados *
Liliana Barros Tavares **

Cem anos da Interpretação dos Sonhos e cem anos da invenção do cinema. Será que o pensamento psicoanalítico pode nos ajudar a entender as aproximações entre essas duas linguagens?

One hundred years since The Dreams Interpretation and one hundred years since the movies creation. Perhaps the psychoanalytic thought could help us to understand the relation between these two languages.

Sonho e cinema, ambos existem por meio da imagem e da linguagem simbólica. Essa seme lhança já fez com que alguns analistas se ocupassem em falar dos possíveis significados de determinados filmes. Aqui, eu gostaria de fazer algumas associações livres, e expor idéias que surgiram a partir da apresentação do filósofo Jomard Muniz de Brito no encontro do CPPL sobre sonho, psicanálise e arte, maio passado no Recife.
Nós sonhamos todas as noites. Segundo a psiquiatria, a medida em que vamos envelhecendo sonhamos cada vez menos. Quando bebê, chegamos a sonhar até 50% do sono diário. Na idade adulta essa percentagem cai para 25%. A fase do sono na qual sonhamos é chamada de REM uma sigla para Rapid Eye Moviment que em português significa Movimento Rápido do Olho. É durante esta fase que sonhamos. Ela geralmente acontece por volta de 90min antes do nosso despertar. Coincidentemente a maioria dos filmes tem quase a mesma duração.
Em 1895, Freud interessa-se em anotar seus sonhos. Ele diz: “No primeiro quarto de hora depois de acordar, recordava-me de todos os sonhos que tivera durante a noite e dei-me ao trabalho de anotá-los e tentar solucioná-los” Freud anuncia a qualidade enigmática do sonho e cinco anos mais tarde a revela como uma linguagem simbólica que se apresenta, como todos sabem, em função dos mecanismos de deslocamento, condensação, representação e elaboração secundária.
O sonho, que na Antigüidade Clássica era associado ao mundo dos seres sobre-humanos como algo introduzido pelo divino ou pelo demoníaco, torna-se a partir de Freud uma produção essencialmente natural e principalmente com a intenção de realizar desejos inconscientes.
Nessa mesma época, dois contemporâneos de Freud, Louis e Auguste Lumière inventam o mecanismo do cinematógrafo, que consiste em projetar uma série de fotografias com uma rapidez tal que temos a ilusão de movimento, isso se dá pelo fato de que antes que a imagem de um objeto desenhada na retina se apague uma outra é projetada, esse continuo de impressões de imagem não permite que percebamos o intervalo entre as fotografias. Assistimos então a um filme.
Será que o Movimento Rápido dos olhos funciona como nosso cinematografo interno? Quando os primeiros diretores projetaram imagens captadas da vida real, causaram espanto e alvoroço , como narra José Carlos Avellar, em um escrito para a revista Cinemais em 1996; ele diz que na primeira sessão em Amsterdã o pânico foi tanto que suspenderam a projeção e depois disso, antes de cada sessão, tornou-se obrigatório garantir que a imagem não era real, que os cavalos nem a locomotiva iriam saltar da tela e atropelar os espectadores. As reações que os primeiros filmes causaram foram muito intensas. Aquelas imagens projetadas pareciam tão verídicas que confundiam-se com a realidade.
Enquanto dormimos não sabemos que estamos sonhando. Vivemos uma realidade onírica tão verdadeira naquele momento quanto a vida diurna. Durante o sonho parece que fazemos parte de uma lógica que quando confrontada com a realidade não faz sentido algum. Por exemplo; uma senhora conta, achando engraçado e absurdo, um sonhou em que suas sandálias saiam andando sozinhas até chegar perto de um sapato, em seguida uma entrou no sapato e ficaram, a sandália e o sapato, batendo um num outro. Realmente é uma cena cômica e insensata, mas se estivéssemos à luz da psicanálise e se considerássemos a história de vida desta senhora que separou-se há vinte e dois anos e desde então não manteve nenhuma relação afetiva nem aproximou-se de ninguém com intenções sexuais, mesmo quando interessada, poderíamos fazer várias interpretações deste fragmento de sonho, se contados em análise.
Freud com a teoria da interpretação dos sonhos nos deu a dica para entender a lógica do inconsciente. O cineasta quando dirige e edita seu filme pensa em elementos para significar algo que ele deseja comunicar. As cores, as tomadas e a movimentação das câmaras, fazem com que o diretor possa falar além do que esta sendo dito. São formas que ele escolhe para comunicar algo. A Nouvelle Vague de Jean Luc Godard, as caricaturas absurdas de Felline, as cores de Almodovar e o deslizar da câmara de Win Wenders são alguns exemplos da linguagem simbólica usadas por esses diretores. Não podemos esquecer Woody Allen e seus filmes escrachadamentes psicanalíticos que usa o recurso da palavra com todas as suas possíveis formas de simbolização. Foi ele que surpreendeu o público, quando fez uma personagem de “A Rosa Purpura do Cairo” saltar da tela e viver uma história de amor com uma cinéfila. Filme e realidade se misturam, como os primeiros espectadores dos filmes dos irmãos Lumiére acreditaram que poderia acontecer. A cineasta Ana Carolina diz que “de noite somos todos diretores de cinema, porque um sonho é como um filme que cada um de nos faz com inteira liberdade.” A liberdade do inconsciente de usar seus recursos de cineasta. Alguns filmes são obra de arte. Se a simbolização é um componente básico para a criação de uma obra de arte, poderíamos considerar o sonho uma obra única de valor artístico? E já que as obras de arte são sublimações de desejos inconscientes, estaria o sonho no terreno da sublimação?
Assim como um sonho pode provocar associações antes nunca pensadas pelo o sonhador, uma obra de arte pode levantar questões desestruturantes para quem a assiste. Isso faz lembrar uma colega que contava que um de seus pacientes costumava pedir para que ela fosse assistir a um ou outro filme pois tinham coisas nos filmes que ele queria dizer e não conseguia e que o filme tratava da problemática dele. Ele dizia que depois do filme tinha chorado muito ou não tinha conseguido dormir ou achava que deveria fazer justamente o que o personagem “X” do filme fez, e insistia que era preciso que ela fosse assisti-lo, que apenas falar não adiantava. Para muitas pessoas a identificação com as personagens é tão intensa que suas atitudes começam a ser influenciadas por elas, como no filme de Woody Allen, e por extensão, como nos programas de televisão onde parece haver uma tendência atual de confundir esse limite entre a fantasia e a realidade. Programas em que o telespectador escolhe o fim da história outros em que apresentador vem até a sua casa para vasculhar seus pertences e mais recentemente programas como Vinte e Poucos Anos da MTV e No Limite da Rede Globo que convidam pessoas para participar de uma situação armada pela produção para assistir-mos como elas se comportam diante das dificuldades que encontram. Um pouco parecido com um o filme o Show de Truman, em que todo mundo assiste, através da telinha, o desenrolar de sua vida. O personagem e um ator desde bebê e só ele não sabe que vive em um “setting” de filmagem. Será que Sasha (a filha de Xuxa) já desconfia?
A sabedoria popular diz que quando contamos nosso sonho ele não acontece. Na análise aprendemos a falar para não atuar. Perece que quando contamos o sonho ele já está acontecendo naquele momento. O desejo não só se realizou quando dormíamos mas quando foi tornado público, passou para a esfera da realidade, revelou-se, mesmo que de forma irracional.
Assistir a um filme que trate dos conflitos do ser humano é nos colocar frente a nossas própria agruras. Quando nos deitamos, deixamos que esse diretor desconhecido projete, no escuro do nosso interior, mais um capítulo da nossa história mais íntima, que todas as noites fielmente assistimos e muitas vezes somos atores e espectadores ao mesmo tempo.
No cinema, quando as luzes se apagam, não nos lembramos que estamos acordados. A realidade daquelas fotografias nos pertence. Estamos imersos naquela história. No final da sessão, a sensação de termos tido um sonho coletivo. Será que todos sonhamos a mesma coisa? Será que desejamos a mesma coisa? O sonho é a realização de desejos inconscientes. Os programas de TV realizam desejos. Teriam eles alguma função semelhante a do sonho?
O reflexo do rosto, o retrato pintado, a fotografia, o cinema, a TV. Quanto mais nos olhamos mais nos estranhamos. Quando Freud começou a entender as propriedades do sonho e a relacioná-las com os sintomas de seus pacientes, interessava-se pelo seu roteiro, pela sua filmagem e sua pela montagem. Estaria ele inventando a crítica de cinema? Pergunta-se Avellar. Lembro-me também de uma pergunta que Jomard fez e eu gostaria de passá-la adiante: Será que o cinema é tão importante quanto os sonhos? Parece que minhas associações foram livres demais, quero acabar com uma fala dita pela a personagem de Goya, no filme de Carlos Saura que leva o nome do pintor. “O sonho da razão produz monstros. A razão com a fantasia é a mãe da arte e a origem de suas maravilhas”.

* Trabalho apresentado no XIII Congresso do Círculo Psicanalítico Brasileiro em 7 de setembro de 2000 na Paraíba.
** Psicóloga. ltavares@mailexcite.com

BIBLIOGRAFIA:
AVELLAR, José Carlos, Revista Cinemais, número 2/dezembro de 1996.
FREUD, Sigmund, A interpretação dos Sonhos, Vol. IV e V, ed. Imago1987.
KOLB, Lawrence, Psiquiatria Clínica. ed. Guanabara, Rio de Janeiro,1977.
LAPLANCHE, J. Vocabulário da Psicanálise, ed. Martins Fontes, 1998.
MARIGUELA, Márcio, Revista Cult, Número 28 ano III, 1999.

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