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Correntes de Prometeu
Maria Angelina Kalil Aidé 1

O artigo consiste em uma reflexão acerca do desamparo como fenômeno que perspassa a vida humana. A falta de garantias, de certezas, a presença da dor e a possibilidade do amor, o apelo ao outro e o desespero do nada, do vazio primordial, do não assimilável do Outro, da “estranheza”, da crença religiosa que inviabiliza um projeto do impossivel senão num além. Vida é improviso.

The article consists in the reflection of abandonment as a phenomenon that goes over human life. The missing of guarantees and certainties, the presence of pain and the possibility of love,the other’s appeal and the despair of nothing, the fundamental emptiness, the non assimilated part of the other, the “strangeness”, the religious belief, that doesn’t permit any project of the impossible, except beyond this life. Life is to be lived.


“Se insistirem para que eu diga por que eu o amava,
sinto que isso só pode exprimir-se respondendo:
“Porque era ele; porque era eu”.
Montaigne


E o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais”, diz Freud em 1895.

A Hilflosigheit, o desvalimento original, resulta da encruzilhada estrutural-discordância intra-orgânica e relacional. Precisar do outro, impreciso, é preciso. “Ainda que Ele me mate, confiarei n’Ele”. (Jó, 15:13)
Em Die Verdrängung (1915), Freud confessa ser a dor um tema por demais obscuro, após tê-la considerado no Entwurf, efeito de uma ocupação (Besetzung) demasiada nos neurônios psi, produzindo um insuportável aumento de tensão sentido por v.
Embora Derrida afirme que, “de certo modo não há trilhamento (Bahnung) sem um começo de dor” (Derrida, 1971), não eqüivale inteiramente significá-la como produtora do psíquico, sendo, todavia “o mais imperioso dos processos” (Freud, 1895).
No “sermão de Benares”, Buda enuncia que “tudo é dor” - o nascimento é dor, a velhice é dor, a doença é dor, a morte é dor, a união com o que detestamos é dor, a separação dos que amamos é dor, não obter o que desejamos é dor”. (Comte- Sponville,1997). Obter o que desejamos é dor, lição psicanalítica.
O acúmulo de tensão tende à descarga que se inicia pelo grito atraindo a “pessoa prestativa” promovendo a “ação especifica”, no socorro ao bebê humano, cuja prematuridade reclama auxílio necessariamente. Instaura-se o complexo pulsional, o circuito da pulsão.
O grito, em primeira instância, descarga motora, único recurso do futuro falante, cumpre dupla função: a de apelo ao outro e de percepção de sua própria emissão, registrada nos neurônios psi: memória na carne. Dai a importância da “hörkappe”, o lóbulo auditivo que figura nos diagramas constantes em O Ego e o Id e na Conferência XXXI (Freud, 1923, 1933). Segundo Lacan, “os ouvidos são, no campo do inconsciente, os únicos orifícios que não se fecham”. (Lacan, 1979)
O grito jorra do buraco da boca, orifício pulsional. De passagem, podemos registrar a “equivalência entre a energia do grito e o prazer sexual do lábios erógenos” (Nasio, 1996), que será examinada por Freud evidenciando a ligação entre dor e prazer.
Este socorro enseja o “complexo perceptivo de outrem”. Complexo, (com e plectere) - enlaçar. Enlaçamento-”conditio sine qua non” ao estabelecimento do humano.
O complexo do próximo - o “Nebenmensch”, literalmente, “o homem ao lado”, apresenta-se, por sua vez, sob um duplo aspecto, um dos quais mantém-se constante, imutável, coeso - a Coisa (als Ding-”als”, como, na qualidade de ), e outro, variável, que irá compor as primeiras Vorstellungen, através do que Freud denomina, nos “Chistes” (1905), “mimética ideativa”, quando o sujeito pensa pictorialmente, identificando-se aos gestos, à forma do outro, bem como, obtêm informações sobre seu próprio corpo. O semelhante e um além do semelhante. (Aqui, implicitamente germina o Mais Além de 1920, como um limite ao desprazer/prazer, com função defensiva, ou seja, manter o aparato em um aquém, a menor tensão possível).
Inscrições do auxílio e da dor que o determinou, que decidem nosso destino (Moro, filho de Nix, a Noite), compartidas com esse vazio primordial, realidade muda, em torno do qual gravitam as marcas do mundo, anteriores a qualquer significado, anteriores a todo recalque. O grito apela ao Outro, engendrando o silencio, o vazio que permanece, por sua natureza, estranho, (Fremde).
Nasio postula, com o Freud de 1926, que “só existe dor, sobre um fundo de amor” (1997) e, ainda que, “o amor é uma espera e a dor a ruptura súbita e imprevisível dessa espera” (ib.) Assim, duas são as vertentes da dor: a “hemorragia” libidinal e àquela apreensão de que se pode perder algo que se quer. “O mal é, num começo, aquilo pelo qual a pessoa é ameaçada com a perda de amor” (Freud, 1930). A dor pertence ao Isso e a angústia ao Ego como pré-sentimento de um mal futuro.
A Coisa é a parte não assimilável do Outro, presença estrangeira, rastro familiar tatuado no cerne do ser, des-ser. Sentimento de “inquietante estranheza”. O que se tem de mais íntimo, mais visceral, é o mais exterior, que Lacan denomina “extimidade”, onde o “ext” da cultura invade a carne, através das imagens acústicas, visuais, táteis, etc., que, então, se torna corpo.
Permanece um impossível de dizer, como ameaça permanente do encontro com o nada que nos ronda, que nos cinde como possibilidade da perda de si. A terceira mulher na vida de cada humano, conforme o Tema dos Três Escrínios (Freud, 1913). “O que há em Das Ding é o verdadeiro segredo” (Lacan, 1960). Hiância mortífera e constitucional.
A “nova ação psíquica”, o narcisismo, “o limiar do mundo visível” (Lacan, 1966), articulando as pulsões parciais, constituirão um ”eu”. Imagem do corpo efetuada pelo Outro materno. Necessário à luta pela vida tanto quanto obstáculo. Nosso Eco, nossos fantasmas. Sonhos e Sintomas. Não duvidamos do mundo, duvidamos de nós.
No Mal-Estar da Civilização (Freud, 1930) ao examinar a posição do homem no mundo, confere ao desamparo três fontes - nosso próprio corpo, as pulsões, impulsos hetero, auto-destrutivos, que nos condena ao conflito; o mundo externo, com força e impiedades cegas e os relacionamentos humanos, o mais penoso de suportar.
Como é possível proteger-se do sofrimento que nasce da relação ao outro? “Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor” (ib.). O amor nos tece e nos entristece. Impossibilidade radical, “amar o próximo” - nosso inferno, nosso paraíso.
Próximo, figuração da angústia que, focalizada desde o Rascunho E, de 1884, se nos engana quanto aos prazos, não nos engana quanto à finitude.
O verdadeiro afeto - só o homem é mortal. Angústia, a dor por excelência que, até 1926, era considerada como efeito do recalque e, a partir de Inibição, Sintoma e Angústia, o promove. Sediada no ego, desestabiliza sua integridade imaginária (narcisismo), imagem erotizada, interseção entre a inteireza e sua dissolução. “A felicidade não faz parte do plano da Criação” e, se sublimar é a saída mais saudável, é insuficiente para atender à corporeidade.
Somos Oedipus. Em grego, “estar inchado”, mais “pous”, pé. Em latim, OEdipus, “pous” vem do egípcio “pat”, “phat”, suster, sustentar. Em outra versão etimológica, à qual acrescenta maior riqueza é “oida”, “eu sei”, mais “pous”, pé. “Eu sei” é uma das expressões marcantes do rei Édipo. No seu próprio nome, a ambigüidade - o sr. sábio sustenta-se em pés inchados o que, convenhamos, não facilita a caminhada. “Melhor não ter nascido”.
Freud refere-se à religião como ilusão, refúgio a um pai idealizado, projeção. Não se detém quanto ao “Pai, pai, porque me abandonaste?”, escândalo do Cristianismo - um Deus/Filho assassinado. Nem Ele se livra do madeiro. A fé é uma graça que, estranhamente, não é concedida a todos. É fé-licidade.
Lacan considera que as religiões são tentativas de absorver Deus ao Logos, não uma sublimação do pai mas, ao contrário, um rebaixamento dos deuses à pobre verdade do pai.
No judaísmo constata-se o puro Simbólico sobre o Real onde Deus é “Eu sou o que sou”, nada mais que “palavras que giram em falso, que consistem apenas no buraco que fazem” (Lacan, 1975). Jeová, um nome para o inominável, para o furo no Simbólico. As religiões seriam tentativas de domar o Real, que é aquilo que nos move, nos determina, nos inviabiliza como Um, porque jamais apreensível pelo Simbólico ou pelo Imaginário, ex-sistindo a ambos. “La religión verdadera no esta loca, se vale de todas las esperanzas, digamoslo asi, las santifica... Pero entonces, si el psicanálisis tiene êxito, se extinguirá hasta no ser más que un síntoma olvidado” (Lacan, 1993).
“A ação moral enxerta-se no real” (ib., 1960); a ética está para além do mandamento, ou seja, daquilo que se apresenta como dever, obrigação. Esta, filha da culpa, leva ao sacrifício, busca de reconciliação, de “religare”. Suposto aplacamento da ira dos deuses que são o real.
No entanto, não seria a ilusão primeira a de futuro?
Kierkergaard no trato do “Desespero Humano”, assinala que o desespero é que é a doença mortal, acrescentando que, estar mortalmente doente é não poder morrer. A desesperança é a impossibilidade da última esperança, impossibilidade de morrer. O desespero vem do eu, o próprio espirito que é eterno. No morrer, o desespero continua se transformando em viver. “Quem espera não pode morrer assim como um punhal não serve para matar pensamentos, assim também o desespero, verme imortal, fogo inextinguível, não devora a eternidade do eu, que é seu próprio sustentáculo” (1979). O homem que desespera tem um motivo de desespero - o esperar...
Spinoza afirma. “Não há esperança sem temor nem temor sem esperança” (Comte-Sponville, 1979).
E o que é a esperança? Uma das três virtudes teologais, ao lado de fé e da caridade, está contida no grito, prossegue na queixa, termina no último suspiro.
Se o homem é o “Deus da Prótese (Freud, 1930) não seria a esperança a primeira? Não esqueçamos que ela fazia parte das calamidades, uma das vicissitudes do vingativo. Zeus e a única que restou na caixinha da imprudente Pandora.
E o homem como viveria sem ela? Ser-no-mundo, Dasein, pré-ocupação. Rede espaço-temporal complexa que só no a posteriori de sua inter-versão se elucida. A Not des Lebens jamais cessa. “Carne inteligente”, “caniço pensante”, que produz uma civilização que lhe é antagônica - “a lei moral se exerce contra o prazer” (Lacan, 1960) - sem poder pular fora do mundo, no duro desejo de durar? Onde começa o sofrimento comum e termina o sofrimento neurótico? Haveria Deus, outro nome da esperança, sem o homem?
Viver na espera é viver num futuro do qual não se tem garantia, sob propósitos do passado que também não há.
Somos Ícaros, fugindo do Acheronte, na incerteza dos caminhos, errância congenial.
A fantasia, impostura necessária, esbarra na inflexível Ananké. Circularidade - se nada esperamos, nada tememos, mas sem esperar...
Dante inscreve na entrada do Inferno; “Abandonai toda esperança, vós que entrais - aforismo que também poderia figurar nos portais do Paraiso - acrescenta Comte-Sponville. ”Não é insuportável a sucessão dos dias belos?” adverte Freud. (pag.6).
A esperança é uma cilada. Con-temporização. Somos “pacientes” de Cronos, filho do Verbo e pai de todos os deuses. Somos im-pacientes. O desejo outra coisa não é, senão projeto de futuro.
Na Interpretação, Freud refere-se ao presente como a forma temporal na qual o desejo é apresentado como preenchido. Mas vivemos no devir - o desejo é metonímino. Permanente impermanência.
Heráclito afirma ser a verdade filha do tempo. Com Sartre aprendemos que escolher é o ato mais demasiadamente humano-quando não escolhemos, estamos escolhendo. Freud nos cobra ser responsáveis até pelos nossos sonhos (1925). Dito de outro modo, somos responsáveis pelo nosso inconsciente: “lá onde isso era, eu como sujeito, devo advir”. Paradoxo que nos torna a todos covardes.
Na Ética a Nicômaco, Aristóteles já advertia que a deliberação se faz, não sobre o passado, mas sobre o futuro e o contingente. Nem Deus pode desfazer o já feito. Como responder eticamente sobre nosso atos? Como operar no mundo se só “Nachträglich” observamos os efeitos de nossos atos? Desamparo.
O ato analítico implica na suspensão da piedade (inútil), dos ideais (há futuro?), da comiseração (pacto com o sintoma), das paixões (que levam ao julgamento), limitando-se à “causa sui” do sujeito, que o analista desconhece. Implica na ética do Das Ding - do bem que se encontra para Além do principio do prazer, que não é dos objetos do desejo mas objetiva que tais objetos se articulam e sejam postos como legítimos à pulsão.
Determinismo e responsabilidade em um Além de qualquer princípio. Somos con-juntura com um Universo, adverso, com o qual con-versamos.
Temperança-virtude. Tempo-herança, “Aquilo que herdaste faça-o teu”.
No exame da sabedoria prática, Aristóteles distingue a escolha racional (proairesis) da boulesis (aspiração). A primeira incide sobre objetos possíveis e aos meios de obtê-los, enquanto que a segunda refere-se aos objetos impossíveis e seus objetivos.
Subordinar o desejo à razão (dianoética). Prudente é quem é capaz de deliberar corretamente sobre o que é bom e vantajoso. Como deliberar sobre o contingente na contingência da deliberação? Escolha pressupõe liberdade.
A reflexão psicanalítica, na origem da ética, expõe Totem e Tabú, marcando uma radical diferença com relação ao ponto de vista filosófico. A Psicanálise postula uma subversão, um sentido oculto, um umbigo, “Entrar na dimensão ética da Psicanálise é entrar na relação entre a ação e o desejo ou, em última análise, a pulsão”(Garcia-Roza, 1996). A pulsão não tem objeto específico de satisfação. A medida da ação situa-se na “relação da ação com o desejo que a habita”, (Lacan, 1960).
Há uma barreira intransponível naquilo que Aristóteles denominava o “bem para o homem”, que Lacan chama de “via americana”, e a “ética do mal” ou a “ética trágica da Psicanálise”. Não ceder de seu desejo deve ser entendido como impedir que o aparato anímico domestique a potência pulsional, em prol de ideais. Ideal é sintoma e/ou sublimação - “a arte é ainda busca do paraíso perdido”, (Comte-Sponville, 1997).
Ética e temporalidade confluem. Viver é insistir, é resistir no e ao desamparo. Não há Baadecker, Poiesis na praxis. In-ventar. Eólo, deus que representa agitação, instabilidade, inconstância, vaidade, brisa, murmúrio, prenúncio de tempestade-Espírito Santo, sopro da boca de Javé. Alma em grego, Psyché. Sopro. Sutil intermezzo entre o Céu e a Terra.
Psicanalisar é inacabar. É ensejar à pulsão de morte, pura potência anárquica, que efetue seu trabalho como possibilidade de cri-ação. Sem cânones estéticos-ideais-mas erotização.
Não artistas - arteiros, artífices de Eros/Anteros.
“Pesquiso, não afirmo; aqui nada estabeleço de definitivo e certo; faço conjunturas, experimento, comparo, tento, pergunto; diz Jung. (Ribeiro, 1992)
Viver é a-ventura do presente, com as encobridoras memórias, na eternidade do instante, cuja consistência é “si”-”tu”-ação.

1 Psicóloga, Psicanalista do CBP-RJ e Mestre em Psicologia pela UFRJ.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Brandão, J. - Mitologia Grega. Vol.I, Petrópolis, Ed. Vozes, 1986.
Comte-Sponville, A - Bom Dia, Angústia! S.Paulo, Martins Fontes, 1997.
________- Tratado do Desespero e da Beatitude. S.Paulo, Mar- tins Fontes, ,1997.
________- L’Etre-temps, Puf/Perspectives. Critiques, Presse Uni-versitarie de France, 1999.
Derrida, J. - Freud e a cena da escritura, in A escritura e a diferença. R.Janeiro, J. Zahar, 1998.
Freud, S. - Ed.Bras. das Obras Psicológicas Completas de S. Freud, R.Janeiro, Imago, 1972-1980.
Garcia-Roza, L.A. - Ética e Política em Psicanálise, in Ética, Psicanálise e sua Transmissão. Petrópolis, Ed. Vozes, 1996.
Kierkergaard, S. - O Desespero Humano, in Pensadores. S.Paulo, Abril Cultural, 1979.
Lacan, J. - O Seminário, A Ética da Psicanálise. Livro 7, R.Janeiro, J.Zahar,1988.
_______- La Tercera, in Intervenciones y Textos. Vol.2, B.Aires, Manantial,1993.
Nasio, J. D.- O Livro da Dor e do Amor. R. Janeiro, J.Zahar, 1996
Ribeiro, I. - Presença do Psicanalista, in Clínica e Sociedade. R.Janeiro, Gryphus, 1992.

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