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Da Sexualidade na 3a Idade ou do Não-Envelhecimento do Desejo 1
Maria Inês de Araujo 2

Este artigo apresenta uma análise da evidência do caráter imorredouro do desejo inconsciente através da expressão da sexualidade em pessoas com idade avançada. Baseia-se numa série de comportamentos observados durante atividade em que ouvem leitura de material literário. Estes apontam para uma reedição de vivências edipianas dos sujeitos do grupo.

This article presents an analysis of the evidence of the undieing character of the unconscious desire through the expression of sexuality among the elderly. It is based on a series of observed behaviors during reading activity in which they listen to literature material. These point to a reedition of the Oedipus experience of the group subjects.

Introdução

O presente trabalho refere-se a observações iniciais feitas sobre a manifestação da sexualidade em um grupo de pessoas idosas, durante atividade de leitura desenvolvida com elas às quartas-feiras, com duração de cinqüenta minutos. A atenção flutuante registra a repetição de certos comportamentos que dão mostras do caráter inesgotável do desejo inconsciente, os quais apontam para revivescências edípicas. Esse desejo de ler para os idosos é fruto de um ímpeto antigo de contribuir para o fortalecimento do ego das pessoas com idade avançada. Em algum ponto de um artigo sobre o desenvolvimento emocional das crianças, está anotado que o ego do idoso torna-se tão frágil quanto o da criança. Dentro dessa relação de similitude, refletiu-se sobre a situação das pessoas idosas vivendo em um estado de dependência, em que o abandono produz maior impacto do que em outras etapas e circunstâncias da vida (excetuando-se a fase da infância). A iniciativa de desenvolver junto a elas essa atividade de leitura tem por objetivo minorar-lhes o peso da realidade da vida.
De acordo com o projeto inicial, serão lidos os cinco livros de José Lins do Rego que formam o conjunto dos escritos da chamada fase do “Ciclo da Cana-de-Açúcar”.1  Este romancista foi escolhido porque fala das coisas da vida e da natureza humana com muita simplicidade, sendo superado apenas pela simplicidade com que essas coisas ocorrem e existem. Adotou-se como pressuposto que a vida contada em seus livros seria parecida com a dos idosos, até mesmo pelo fato de ser a Paraíba (e, por extensão, também Pernambuco) o “setting” cultural de suas vivências emocionais da infância, adolescência e vida adulta. Até o início da atividade, não se suspeitava, porém, de que o desejo inconsciente dos idosos pudesse ascender à forma de conteúdo manifesto a partir do estímulo literário, mesmo conhecendo-se de antemão a riqueza de material psicanalítico contido nos escritos de José Lins do Rego. Foi a partir dessa constatação, até certo ponto surpreendente, que surgiu a idéia de aproveitar-se o material para fins de um começo de análise, agora apresentada.
O grupo é formado em sua maioria por mulheres, tendo apenas um homem. Vive numa comunidade para pessoas idosas pobres e sem familiares, ou abandonados pelos parentes. As idades variam entre sessenta e sete e oitenta e cinco anos. A freqüência média de comparecimento do grupo é de sete pessoas, que demonstram interessar-se pelo material literário, além de compreendê-lo.
Não se trata de um grupo terapêutico, no sentido clínico. A atividade se desenvolve num “setting” aberto onde os participantes entram e saem livremente do recinto. Como o local não é protegido com paredes, é comum a atividade ser perturbada pela presença de visitantes, pessoal da administração ou outros residentes. Dentre esses últimos, alguns apresentam comprometimento psicótico. Três regras ordenam o funcionamento da atividade: a leitura, horário para começar e horário para terminar. A leitura toma o lugar do que seria, no enquadre clínico, a associação livre. O material de leitura é detonador da transferência de material inconsciente tanto em relação aos colegas quanto em relação à minha pessoa. A fantasia também se explicita sem, contudo, poder ser interpretada sob pena de praticar-se a psicanálise selvagem.

Observação e Teoria

O problema com a fala: rivalidade e inveja

Desde o primeiro encontro com o grupo, chamou atenção o fato de as mulheres se irritarem muito entre elas, mais precisamente quando alguém fala. A reação padrão costuma ser uma delas interpor-se à fala da outra ou desqualificá-la por meio de palavras ou de expressões faciais de desagrado; ou ainda, numa atitude de desaprovação, dizer àquela que fala: “vamos cuidar de ler senão nós não oice” , ou “deixa ela falar” , numa menção para a leitura continuar. Existe uma sensação de que a fala da outra tem que ser destruída, como se houvesse indícios de inveja.
Na passagem de “Menino de Engenho” para “Doidinho”, fez-se um intervalo para introduzir-se, em dois encontros, material dos contos de fadas, os quais vieram a aflorar no grupo o tema da inveja. No momento da leitura do trecho de “A gata borralheira” ... quando saltaram da carruagem, o passarinho branco apareceu e, com o bico, furou-lhes os olhos (das irmãs), castigando-as, assim, pela sua maldade” (PIMENTEL: 1955,p.152), dona Josefa reage com a observação: “Olhe inveja o que é que faz! (...). A senhora hoje se apresenta molhada, (?) mas não vive invejando os outros. Tem um coração limpo e pode se apresentar de qualquer jeito”. Através da expressão a senhora, parece falar dela própria, numa tentativa de dissimular o mecanismo projetivo (LAPLANCHE e PONTALIS:1992,p.374), resultando aqui que outrem e não ela é que sente inveja, a exemplo do que acontece no conto, onde Gata Borralheira possui todas as virtudes e as irmãs toda a maldade.
Perguntou-se ao grupo o significado de inveja. Seu Severino responde o seguinte: “A inveja é da natureza. Só chega na pessoa quando é moço. Na minha idade não, porque a pessoa velha não pode mais passear. O moço tem o prazer de passear, de ter mais que os outros (...). Só acha bonito o que vê, da boniteza da pessoa, do roçado, do gado.” Esta fala, decomposta em suas partes, enseja pelo menos três observações teóricas. 1) É da natureza: Spinosa (apud MEZAN:1987,p.123) afirma: “Os homens são geralmente dispostos por natureza a invejar aqueles que são felizes e a invejá-los com um ódio tanto maior quanto amam a coisa que imaginam na posse do outro” . 2) Só chega na pessoa quando é moço.
(MEZAN: op. cit., p.117) diz que a inveja é um sentimento que dificilmente é confessado porque causa vergonha ao invejoso. Quando explicitado, é geralmente acompanhado do qualificativo ‘saudável’, numa tentativa de se defender dessa vergonha. Isso, contudo, não faz com que a inveja deixe de ser inveja e tampouco perca os atributos que a definem: arrebatar, privar, destituir alguém de algo (ibid., p.122). 3) O moço tem o prazer (...) de ter mais que os outros. Essa parte sugere a evidência daquilo que Klein (1991) aponta como um dos mecanismos de defesa contra a inveja e que chama de “suscitar inveja nos outros” por meio de seus próprios sucessos, posses e boa sorte. No entanto, é uma operação precária, porque o feitiço volta-se contra o feiticeiro gerando ansiedade persecutória, por meio da qual “as pessoas invejosas e em particular o objeto interno invejoso são sentidos como os piores perseguidores” (op.cit.,p.251).
Insistiu-se, contudo, em saber se a inveja não ocorre também nas pessoas idosas e se não se verifica entre eles. Flora, sessenta e sete anos, reage apontando: “Pia em dona Josefa!?” E continua: “Eu dou com uma mão e escondo a outra. Porque se eu der, por exemplo, um sabonete a alguém aí vão dizer que estou me pabulando.” Muito embora os exemplos que o grupo apresenta se refiram a coisas materiais, MEZAN (1987) afirma que a coisa a qual se quer arrebatar do outro não tem que necessariamente ser um bem material. Ilustra sua assertiva citando o exemplo do invejoso de O Purgatório, na Divina comédia, de Dante Alighieri, sobre o qual o consagrado autor diz que “seu sangue fora de tal modo consumido pela inveja que lhe bastaria ver um homem se alegrar para que seu rosto se cobrisse de palidez” (op.cit.,p.122). Qualquer que seja o bem em questão, o que o torna motivador da inveja e, portanto, objeto de inveja é a capacidade de servir de suporte empírico para o alojamento de projeção de algo idealizado , imaginário ou fantasmático (ibid., p.126) que se supõe assegurar ao seu detentor um estado de felicidade e que, se estivesse em mãos do invejoso, asseguraria a este último uma felicidade igual (ibid., p.123). Com base nessa premissa, sinto-me encorajada a atribuir valor de inveja à fala expressa pelo grupo, não apenas por sua capacidade intrínseca de suscitá-la, mas também por acreditar num aumento desta, por efeito do processo de deslocamento e condensação. A velocidade, facilidade e independência, entre outros aspectos, com que a fala se efetiva parecem fazê-la dizer da falta a que cada integrante do grupo está submetido.

As lembranças edípicas dos pais

O narrador/personagem inicia o primeiro capítulo de Menino de Engenho com a frase: “Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu” (LINS DO REGO:1974,p.3). Vale lembrar que o pai do personagem era psicótico, que assassinara a mulher e que fora internado. A capacidade do autor em explicitar a saudade do menino Carlinhos da vivência edipiana do casal parental leva-o, ao longo dos primeiros capítulos, a assim se expressar: “O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe (...). Na hora de dormir foi que senti de verdade a ausência de minha mãe (...). Meu pai (...) sempre que estava comigo, era a me beijar, a me contar histórias, a me fazer os gostos (...). Eu o amava (...). Ela passava o dia inteiro comigo (...). Junto dela eu não sentia necessidade de brinquedos (...). À noite ela me fazia dormir. Adormecer nos seus braços, ouvindo a surdina daquela voz, era o meu requinte de sibarita pequeno (...). Ela me enchia de carícias (...) e vejo-a assim, ainda tomando conta de mim, dando-me banhos e me vestindo (...). A morte de minha mãe me encheu a vida inteira de uma melancolia desesperada” (ibid.,pp.4-7). O tema mobilizou de forma significativa duas senhoras. Nina, de oitenta e cinco anos (que dois meses depois diz que casara com um viúvo trinta anos mais velho que ela, que o casamento foi muito feliz e que ele gostava tanto dela que a tratava como se fosse uma filha) emociona-se todo o tempo e diz: “quem não tem pai e mãe não tem nada na vida.” Diante dessa reação, perguntei-me como pode uma pessoa nessa idade ainda sentir falta da mãe. Fui socorrida, entretanto, pela evocação das características do inconsciente, postuladas por Freud: isenção da contradição mútua, dominação do processo primário, intemporalidade e substitução da realidade externa pela realidade psíquica (FREUD:1970,Vol. XIV, pp.213-217). A partir daí, consolidou-se a convicção de que o desejo inconsciente é sempre criança, que nunca envelhece.
No tema do Édipo, enquadra-se também o comportamento de Flora diante da narrativa da visita que o cangaceiro Antônio Silvino fez ao engenho do avô do menino: À noitinha chegava o bando (...) Antonio Silvino à frente (...). Nós meninos numa admiração de olhos compridos para o nosso herói, para o seu punhal enorme, os seus dedos cheios de anéis de ouro e a medalha com pedras de brilhante que trazia no peito. O seu rifle pequeno, não o deixava, trazendo-o entre os joelhos” (ibid.,p.19). Contrariando sua atitude de nunca falar, Flora diz baixinho que o pai trabalhou para o bando do cangaceiro. Ao final da atividade, dirigiu-se a mim para dizer que ainda lembrava quando ele veio à sua casa e na sala perguntou ao seu pai quem era ela. O pai mandou-a ir à cozinha buscar brasa para acender seu cachimbo, numa demonstração de querer demarcar a territorialidade paterna. Nesse ponto, ela introduz a lembrança de que “eu ainda andava de calcinha.” Significativo também o ato falho que fez “essa é uma história venérea” , querendo dizer que a narrativa era verdadeira. A partir daí, Flora passou a vir a cada encontro usando um diferente e extravagante colar e um par de brincos. Em seguida, passou a fumar cachimbo. Começou a sentar-se numa cadeira distante das demais, de costas, e num plano onde eu primeiro tinha que passar por ela para só então me aproximar do restante do grupo e chegar ao meu lugar. Em seu comportamento, pode-se inferir que o uso do colar faz lembrar a medalha do cangaceiro, enquanto fumar cachimbo evoca o hábito e a solicitação do pai. Perguntei-lhe se a mãe não trazia brasa para o pai. Responde dizendo que “ela estava no riacho lavando roupa e que tinha raiva da cachaça dele.”
Finalmente, é preciso fazer-se alusão ao movimento transferencial em relação à minha pessoa que, acoplada à rivalidade fraterna disseminada entre eles, encontra expressão por meio de dois exemplos. Primeiro, na pessoa de Nina, através da repetição de frases como: “Eu estava aqui esperando pela senhora”; “Deixe ela falar”; “Olhe, por mim eu passava o dia inteirinho escutando esta leitura” . Depois em seu Severino, setenta e oito anos, num dia em que, ao encontrá-lo sozinho, pergunto pelas mulheres. Ele responde que estão lá dentro, vendo a Missa do Carmo, parecendo querer que minha atenção seja apenas para ele. Indago-lhe se devo chamá-las e ele responde que não. Curiosamente, insinua que um banco próximo dele não está molhado, pretendendo esquecer que cada um no grupo naturalmente escolheu e se fixou na ocupação de um lugar. Em seguida, após um bom tempo, com a chegada delas, quando alguém pergunta se faz tempo que começou, ele responde: “faz pouquinho” . Noutra situação, ao chegar depois de um encontro que não pude realizar, ele comenta contente: “Graças a Deus que a senhora voltou!”

Manipulação sexual do próprio corpo

Há um século Freud revelou à ciência que a sexualidade humana se manifesta desde o início da vida. No entanto, as pessoas ainda relutam em aceitar essa evidência. A resistência ao reconhecimento da sexualidade na infância parece caminhar lado a lado com aquela demonstrada em relação à sexualidade do idoso. Se as babás sabiam do erotismo nas crianças antes de Freud, como ele mesmo diz, os enfermeiros e enfermeiras também têm conhecimento de sua existência entre os idosos a quem o cuidado lhes é confiado. Se Freud diz que esquecemos nossa sexualidade do tempo de infância devido aos efeitos produzidos nela pela ação do recalque (FREUD:1970, vol. VII, p. 164), por que negamos a do idoso se antes não fomos velhos? Seria por causa das dificuldades edípicas que impedem a admissão da existência da sexualidade entre um homem e uma mulher adultos que, afinal, são meu pai e minha mãe? Seria a necessidade de recobrir essa realidade com a mesma fantasia angelical que serve para negar a sexualidade infantil? O fato é que a sexualidade na pessoa idosa é quase sempre vista como aberrante, desviante. Mesmo em relação ao idoso de posses, que dá provas de sua capacidade sexual e reprodutiva não faltam comentários ou dúvidas quanto à prova dos fatos.
Tendo a família como seu principal agente, a sociedade reprime o idoso, particularmente as mulheres, de procurar um objeto de amor ou um substituto para aquele que foi perdido. Obriga-o com isso a tentar bastar-se a si próprio através da estimulação pessoal de seu corpo. Assim agindo, dentre outras coisas, desconsidera o fato de que também ele está apto para amar, já que, como nos diz a psicanálise, o sujeito em nenhum período de sua vida atinge a perfeição de sua vida sexual. Isso deixa margem a inferir-se que, na idade avançada, o indivíduo possa amar eroticamente o outro com os meios que lhe são disponíveis e livre da condenação da sobrecarga sublimatória, em que os netinhos, preferencialmente, representam os objetos para os quais sua pulsão sexual deva se dirigir. Será que apenas o poeta é capaz de reconhecer, de público, aquilo que ouvidos e olhos, desde que livres da censura, facilmente identificariam como desejo sexual na pessoa idosa? Assim, em “O amor nos tempos do cólera”, Gabriel Garcia Márquez atinge a clareza daquilo que pode ser a vida amorosa das pessoas idosas, na história de um casal de septuagenários, ela viúva e ele solteiro: “Fermina Daza continuou imóvel até a madrugada, pensando em Florentino Ariza (...) como era agora, decrépito e descadeirado, mas real (...). Ao vê-lo assim, vestido para ela (...), não pôde impedir o rubor de fogo que lhe subiu ao rosto (...). E por volta das oito não agüentou mais as ânsias de estar com ele. Saiu ao corredor na esperança de encontrá-lo (...). Teria ficado assim até o amanhecer, calada, a mão dele suando gelo em sua mão (...). Procurou se despedir com um beijo, mas ela lhe ofereceu a face esquerda. Ele insistiu, já com a respiração entrecortada, e ela ofereceu a outra face com uma coqueteria que ele não vira nela quando colegial (...). Atreveu-se a explorar com a ponta dos dedos seu pescoço flácido, o peito encouraçado de varetas metálicas, as cadeiras de ossos carcomidos, as coxas de corça velha. Ela o aceitou com agrado e de olhos fechados, mas sem arrepios, fumando e bebendo aos goles espaçados (...). As carícias deslizaram para seu ventre (...). No remanso perfumado do camarote, fizeram um amor tranqüilo e são, que se fixaria em sua memória como a melhor lembrança daquela viagem” (GARCIA MÁRQUEZ: s/data,pp.406-425).
Freud afirma que o excesso de coerção sexual, promovido pela contínua e cada vez mais intensa exigência de sublimação, não traz maiores benefícios à coletividade (FREUD:1970,Vol.XI, p.50 e Vol. IX, p.191), exatamente pela fatura que lhe é cobrada com a neurose individual.
Os participantes do grupo têm dado mostras de uma sexualidade em ação. Durante a leitura, enquanto as mulheres parecem demonstrar satisfação sexual por meio de risos e espantos com algumas passagens da leitura, o único homem do grupo a obtém de modo direto, através da carícia explícita que dirige ao seu órgão genital. Tendo seu mundo fantasístico possivelmente ameaçado, reage rápida e rispidamente quando dona Josefa, diante da passagem “E ali, sozinho no quarto, os pensamentos maus me conduziam às gostosas masturbações” ,(LINS DO REGO: 1974, p.111), pergunta: O que é isso?”. “Pode continuar” diz ele dirigindo-se a mim. E a ela, em tom de censura: “Por que tem que ficar perguntando as coisas? Eu fico aqui escutando e não fico perguntando o que não entendo.” Dona Josefa: “Eu só queria saber o significado disso”. E ele novamente: “São coisas da vida”.
O gosto demonstrado pela reza do terço por parte das mulheres parece assumir forma substitutiva para a atividade masturbatória. Isso faz lembrar Freud em “O Homem dos Lobos”, quando diz que um dos objetivos da educação religiosa é restringir as pulsões sexuais do indivíduo ao ser-lhe proporcionada uma chance para sublimação (FREUD:1970,Vol. XVII, p.143). Mas restringir não significa acabar. Prova disso é dada por Alzira durante seus momentos de tudo a Deus entregar, não apenas a parte superior do corpo com a blusa desabotoada para tomar sol, como ainda a narina na qual é introduzido um pedaço pequeno de alguma coisa. Talvez, quem sabe, numa tentativa de obter um gozo que mais se aproxime da qualidade do obtido pela fonte genital da pulsão.

Conclusão
A exposição destas observações iniciais sobre o desejo inconsciente no indivíduo com idade avançada pode ser concluída com uma série de perguntas, esperando que as indagações, a seguir, possam servir de reflexão e, oxalá, como ponto de partida para o aprofundamento das questões aqui apenas levantadas.

1. Qual o valor dessas observações para a crescente construção do conhecimento psicanalítico?

2. Há demanda psicanalítica por parte de pessoas idosas em número tal que enseje o fomento do conhecimento teórico?

3. Seria o “setting” analítico o único meio de se estudar o comportamento inconsciente dessa faixa de idade? Haveria possibilidade de uma adaptação do enquadre psicanalítico à situação em questão sem perda de rigor científico-metodológico e, portanto, da confiabilidade do material investigado?

4. Não deveria o estudo do inconsciente, na pessoa idosa, tornar-se também preocupação da psicanálise, tanto para recuperar o tempo em que o assunto tem sido relegado quanto por consideração ao fato de que a expectativa de vida das pessoas vem aumentando com os avanços da ciência?2  Tanto por um como por outro motivo, o conhecimento que ela possa gerar poderia reverter-se em benefício da sociedade, sob a forma de uma nova atitude face à terceira idade (hoje já se fala mesmo em quarta) para que essas pessoas possam viver o prazer do desejo ao qual têm direito?

1 Apresentado durante a III Jornada Norte/Nordeste do Círculo Brasileiro de Psicanálise e II Jornada da Sociedade Psicanalítica da Paraíba. João Pessoa-PB, de 07 a 09.11.97.
2 Ph.D., em Educação pela Universidade de Londres; Professora Adjunta aposentada da UFPB; Membro do Instituto de Estudos Psicanalíticos da Sociedade Psicanalítica da Paraíba.

NOTAS:
1 Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), O Moleque Ricardo (1935) e Fogo Morto (1934).
2 De acordo com o artigo Seeking a better way to dir, de John Horgan, publicado na revista ‘Scientific American’ de maio de 1997, as pessoas com oitenta e cinco anos e mais representam hoje 1% da população americana. Estima-se que na metade do próximo século essa cifra se eleve a 5%. Atualmente em termos absolutos isso significa, aproximadamente, 250.000 pessoas a partir dos dados apresentados no Atlas Geográfico Mundial da Folha de São Paulo, 1994, 2a edição, p.125.
BIBLIOGRAFIA:
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FREUD, Sigmund., O Inconsciente (1915), Rio de Janeiro, Imago Editora, Edição Standard Brasileira, volume XIV, 1970.
_______ Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Ensaio II - A sexualidade infantil, Rio de Janeiro, Imago Editora, Edição Standard Brasileira, volume VII, 1970.
_______ Cinco lições de psicanálise (1909), Quinta lição, Rio de Janeiro, Imago Editora, Edição Standard Brasileira, volume XI, 1970.
_______ Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna (1908), Rio de Janeiro, Imago Editora, Edição Standard Brasileira, volume IX, 1970.
_______ História de uma neurose infantil (1918 [1914] ), Rio de Janeiro, Imago Editora, Edição Standard Brasileira, volume XVII, 1970.
GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel., O Amor nos Tempos do Cólera, Rio de Janeiro, Editora Record, 6a. edição, s/data.
HORGAN, John., Seeking a better way to die, in Scientific American, May 1997.
KLEIN, Melanie., Inveja e Gratidão in Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos, Rio de Janeiro, Imago Editora, 2a. edição, 1991
. LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, J-B., Vocabulário da Psicanálise, São Paulo, Martins Fontes, 2a. reimpressão da 2a. edição, 1992.
LINS DO REGO, José ., Menino de Engenho, Rio de Janeiro, 20a. edição, Livraria José Olympio Editora, 1974.
MEZAN, Renato., A Inveja, in Cardoso, S., (Org.), Os sentidos da Paixão, São Paulo, Companhia das Letras, 1987.
PIMENTEL, Figueiredo., A Gata Borralheira, in Contos da Carochinha, Rio de Janeiro, Livraria Quaresma Editora, 23a. edição, 1955.

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